15/12/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (XX)

9 - O Papel de Vizela

Após um ano de pesquisa chegamos ao fim destes apontamentos com a certeza de que só agora começaram. O tema das indústrias de papel no rio Vizela ainda que quase todo ele imaterial é de grande importância cultural, a fábrica dos Sás que mereceu especial destaque nestes apontamentos esteve na vanguarda da inovação a nível mundial e fez parte dos primórdios da industrialização do país inspirado no que de melhor se fazia em Inglaterra em plena revolução industrial. Num contexto geográfico mais alargado, no do vale do Ave, muitas destas papeleiras nos finais do século XIX e primeiros anos do século XX, foram transformadas em indústrias têxteis configurando o tecido industrial que permaneceu até aos nossos dias.

A arquelogia industrial é um tema emergente que completa a História como um todo. As actividades económicas moldam a personalidade e memória colectiva e por isso cada vez mais são incluídas no estudo da História geral, paralelamente surge o interesse pelos temas técnicos e processos antigos que faz com  hoje inúmeras teses de mestrado e doutoramento se inspirem na arqueologia industrial. Diriamos mais; não se pode pois fazer História moderna sem estudar arqueologia industrial.

Infelizmente as autoridades a quem cabe o urbanismo só muito recentemente se deram conta da importância da arqueologia industrial e por isso por todo o país muito da memória industrial foi destruída. Por Vizela falta ainda criar esta forma de interpretação cultural e entretanto as zonas marginais entre as pontes do centro da cidade viram os antigos edifícios industriais demolidos na quase totalidade e aguardam agora requalificação ignorando a importância cultural das antigas indústrias aí sepultadas. Temos para nós ser irrecuperável. Bons exemplos existem por aí de antigas fábricas reconvertidas em museus, salas de espectáculos, centros tecnológicos, etc… Faltaram rasgos de modernidade para dar novos usos a edifícios obsoletos, porém laboratórios de excelência para arquitectura e movimentos culturais. Estamos em crer que Vizela acordará para esta mais valia económica que é a memória colectiva e o quanto ela pode representar no sector do turismo. Vizela que tomou o nome do rio tem potencial para vir a ser ícone das antigas industrias papeleiras do rio Vizela.

Intimamente ligada à fábrica de papel de Francisco Joaquim Moreira de Sá, a casa de Sá encerra nas suas paredes História desde os primórdios da naçāo portuguesa.  O solar continua em posse da família e foi há poucos anos objecto de um estudo académico que projectou a sua conversão em unidade de turismo rural. É em nosso entender a mais valiosa habitação vizelense que guarda uma valiosa e antiquíssima biblioteca e por isso merece ser preservada. Parece-nos essencial a promoção de um protocolo entre entidades públicas e privadas para garantir o bom estado do imóvel. Trazemos a exemplo a Casa da Insua em Penalva do Castelo no distrito de Viseu em que por acordo com instâncias públicas uma empresa privada ligada ao sector do turismo sem retirar propriedade å família herdeira explora uma unidade hoteleira lá instalada e ainda possibilitou que os magníficos jardins viessem a ser de acesso público. Porque não tornar a Casa de Sá num pequeno hotel temático inspirado na literatura e no papel. Sabemos da má experiência do Paço de Gominhāes nas redondezas mas ainda assim acreditamos que uma boa estratégia de promoção ditará o sucesso.

01/12/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (XIX)

8.2.3 -Os Sucessores do Francisco Joaquim Moreira de Sá

Por António Zeferino Moreira de Sá, filho do primeiro casamento e que casou com Maria Gertrudes Rebelo Peixoto Faria, nasceu Valentim Brandão Moreira de Sá. Este casou com Ana Rita de Faria e Silva e tiveram Francisco Joaquim Moreira de Sá Brandão Sotomayor e Menezes que foi Juiz de Direito em Cabeceiras de Basto. Este casou com a sua prima Eduarda Emília Moreira de Sá que era filha de Miguel António Moreira de Sá, filho do segundo casamento de Francisco Joaquim Moreira de Sá, uma facto curioso este das duas linhas de descendência se unirem. Deste casamento nasceu Bernardo Valentim Moreira de Sá em 14 de Fevereiro de 1853 em Guimarães, foi distinto violinista, musicólogo, concertista e Director de orquestras e coros orfeónicos, escritor e crítico de arte, professor de música, de matemática e de línguas na Escola Normal do Porto. Continuando nesta linha descendente chegamos a Bernardo Joaquim Moreira de Sá nascido em 1879, engenheiro a quem se deve a barragem de Alcáçovas e falecido com apenas 40 anos e que casou com Maria Cristina Rodrigues de Bastos Coutinho Beleza de Andrade. Ainda nesta linha de descendência na actualidade chegamos a Rui Moreira de Sá e Guerra autor da obra que nos inspirou para estes apontamentos, “A prioridade do Fabrico de Papel com Pasta de Madeira na Quinta de Sá”. É também autor de “Bernardo Valentim Moreira de Sá – Um Renovador da Cultura Musical no Porto” publicado em 1997 pela Fundação Engenheiro António de Almeida, é ainda um estudioso de genealogia tendo vindo a dedicar-se à família Beleza de Andrade e na Biblioteca Florbela Espanca de Matosinhos encontram-se disponíveis diversas obras da sua autoria sobre estudos seus no âmbito da história local de Matosinhos. Sobre Rui Moreira de Sá e Guerra cabe-nos o dever de enaltecer tão prestável personalidade quando numa já fase final destes nossos apontamentos o contactamos e amavelmente e sem pretensões nos fez chegar prontamente importante documentação sobre o tema.

Regredindo novamente a Bernardo Joaquim Moreira de Sá temos a sua irmã Leonilde Moreira de Sá que casou com Luís Costa que foram os pais de Helena Moreira de Sá e Costa, pianista nascida em 1913 e falecida em 2006 e que em 1935 terminou o curso superior de piano no Conservatório Nacional com a nota máxima de 20 valores, prosseguiu depois estudos em Paris e Berlim e realizou inúmeras digressões pela Europa, América do Norte e do Sul onde actuou sozinha e em música de câmara. Ficou na memória uma série de 15 concertos em Espanha em 1945 onde actuou com a sua irmã violoncelista Madalena Moreira de Sá e Costa. Esta sua irmã nasceu ainda vive com 97 anos e durante 50 anos fez dupla com a sua irmã. É ainda desta linha de descendência que se chega a Fernando Moreira de Sá Monteiro autor de «Sás – Subsídios para uma Genealogia» e utilizador assíduo do forum Geneall e que muito tem contribuído para o conhecimento desta família.

Voltamos atrás para nos deter em Miguel António Moreira de Sá, filho de Francisco Joaquim Moreira de Sá com a sua segunda mulher Ana Peregrina Pinto Carvalho Velho. Supomos que este filho fosse ainda criança quando seus pais foram forçados a emigrar para o Brasil e que este terá viajado com eles. Foi a ele que Francisco Joaquim Moreira de Sá se referiu numa das suas cartas a António de Araújo Azevedo ao dizer que ansiava voltar à Europa para dar educação ao seu poeta. Miguel António Moreira de Sá, em 1828, serviu como oficial um batalhão de voluntários constitucionais tendo por essa razão sido preso numa pequena cadeia existente nas muralhas do castelo de Guimarães da qual se evadiu com mais cinco companheiros descendo por estreita freta com auxílio de uma corda improvisada com tiras de lençóis para o Largo do Cano. Teve depois que emigrar com a sua divisão para Inglaterra para fugir à perseguições. Foi escritor notável em prosa e poesia. Nos apontamentos do Padre António José Ferreira Caldas em “Guimarães Apontamentos para a sua História” na sua 2ª edição em 1996 da responsabilidade da Câmara Municipal de Guimarães e Sociedade Martins Sarmento, é dito que a família guarda dele poesias impressas e manuscritas, entre as quais notáveis cartas que escrevia à sua mulher quando se encontrava emigrado. Existe ainda um manuscrito que narra os trabalhos durante o seu exílio e outro que intitulou “História de D. João VI do seu Nascimento até à Morte”. Foi mais tarde para Lisboa para tratar da educação dos filhos tendo sido convidado a redigir o Nacional, jornal periódico de oposição ao governo. Morreu em Lisboa em 1836.

Miguel António Moreira de Sá foi casado com Maria Bebiana Carvalho de Oliveira e foram pais de Eduarda Moreira de Sá, cuja descendência já descrevemos por ter casado com o primo Francisco Joaquim Moreira de Sá na linha de descendência do primeiro casamento do seu avô, e de Ana poetisa Amália Moreira de Sá. Esta foi autora de “Rosa Branca e Rosa Vermelha” e  “Murmúrios do Vizela”. Dela é também conhecida a troca de correspondência com o escritor Camilo Castelo Branco. Nesta linha de descendência estão os actuais donos da Casa de Sá dos quais apenas sabemos ser Victor Avelar casado com uma descendente da família.

Os Sá de Vizela vêm assim de uma velha linhagem carregada de personalidades de grandes feitos e êxitos que conviveram sempre de muito perto com o poder e os decisores nacionais, mas que também inovaram politicamente. Uma linhagem antiga que se renovou na relação com as artes e ciência e que se estabeleceu em ambos os lados do Atlântico. Sobre a importância dos Sá no Brasil destacamos a existência de uma rua em Campos, Rio de Janeiro, rua Dr. Miguel Herédia de Sá. Herédia de Sá foi também o nome de uma estação de comboio no Rio de Janeiro inaugurada em 15 de Fevereiro de 1908, entretanto desactivada e demolida. Também em Minas Gerais existe uma rua de nome Rua Dimas Moreira de Sá que julgamos estar relacionado com esta família. Para estes apontamentos tentamos estabelecer contacto com Santo António de Rio Abaixo em Minas Gerais, apenas o conseguimos por Humberto Catizani, funcionário do cartório local e proprietário de um hotel na cidade. Deste contacto conseguimos apurar que o nome Moreira de Sá é muito comum na região mas que nada sabem sobre a fazenda dos Moreira de Sá.

Ainda um episódio curioso sobre os Moreira de Sá, desta feita por Francisco Joaquim Moreira de Sá empreendedor da fábrica de papel, foi a sua curta passagem pela maçonaria e da qual se auto-denunciou. O processo de 2 de Janeiro de 1792 do Santo Ofício encontra-se arquivado na Torre do Tombo e chegou-nos por Rui Moreira de Sá e Guerra.

Certo dia em 1790 Francisco Joaquim Moreira de Sá foi levado durante a noite por Henrique Correia de Vilhena a umas casas entre-muros da vila de Guimarães onde o deixou fechado durante uma hora numa casa. Decorrido esse tempo apareceu um desconhecido empunhando uma espada que o desarmou e o conduziu a outra casa. Aí ficou de novo fechado até aparecer outro desconhecido que lhe entregou um papel e tinta ordenando-lhe que escrevesse o que pensava da maçonaria. Francisco Joaquim Moreira de Sá escreveu que tinha boa impressão pelo que lhe haviam dito e lido. O desconhecido foi-se e voltaram outros armados que lhe tiraram a fivela, a bolsa e a casaca. Ataram-lhe as mãos ao pescoço, vendaram-lhe os olhos e levaram-no de um lado para o outro. Após isto destaparam-no e através de um juramento exótico fizeram-no jurar não revelar os segredos da maçonaria que consistiam nos sinais de reconhecimento entre eles. Foi-lhe dito que tinha o 1º grau da maçonaria e entregaram-lhe um avental, espada e luvas. No final cearam à custa dos novos membros e riram à custa deles. Outros acontecimentos depois sucederam que o fizeram ter má impressão de tudo aquilo e por isso sempre se recusou com afazeres para não comparecer às recepções. No processo do qual foi absolvido perguntaram-lhe os inquisidores como era possível ele, réu, homem der letras e conhecimentos ignorasse proibição e maldade daquela sociedade, ao que respondeu ter feito profissão e estudado ramos diferentes daqueles que lhe podiam prestar socorro para vir no conhecimento das Leis Eucarísticas.


Fernando de Sá Monteiro num texto no blog Movimento de Unidade Democrática (movmum.wordpress.com) refere a ligação de 2 antepassados antepassados seus à Maçonaria, o primeiro Francisco Joaquim Moreira de Sá, que já sabemos e o segundo Bernardo Valentim Moreira de Sá. Para este último Fernando de Sá Monteiro escreveu que a ligação maçónica lhe proporcionou a e aproximação e conhecimento com grandes vultos da música.

14/11/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (XIII)

8.2 - Os Moreira de Sá –do século XIII ao século XXI

8.2.2 - De Francisco Moreira Carneiro aos Netos

Francisco Moreira Carneiro foi capitão-mor em em Nossa Senhora da Conceição de Mato Dentro, distrito de Serro Frio em Minas Gerais no Brasil, nasceu em 17 de Abril de 1690 em S. Pedro de Sousa, Aguiar de Sousa, foi cavaleiro-fidalgo de sua majestade por decreto régio de 1750, professo da Ordem de Cristo, familiar do Santo Ofício, fidalgo de cota de armas, senhor da quinta do Assento em Santa Cristina de Sezerdelo. Faleceu em 16 de Novembro de 1778 em Barrosas e foi sepultado na capela da Casa de Sá.

Fora ainda moço para o Brasil e seria oficial de carpinteiro quando se ausentou. Os seus pais e avós foram lavradores, cristãos velhos e de boas fazendas. Sabe-se no entanto que teve dificuldade em obter habilitação para a Ordem de Cristo, por ter sido carpinteiro de engenhos em Minas Gerais e ter minerado com escravos embora já fosse capitão de ordenança. Transparece o percurso de homem que não sendo propriamente do mais baixo grau social era desprovido de fidalguia e que obteve lugar na mais alta nobreza de então pelo percurso que fez no Brasil e pelo bom casamento com Eduarda Catarina.

Para a habilitação à Ordem de Cristo foram ouvidas várias testemunhas e tinha documentos de recomendação do Governador de Minas Gerais assegurando os seus bons serviços inclusive assegurando que foi ajudado por Francisco Moreia Carneiro contra um levantamento do povo. O processo iniciado em 1735 foi concluído em 1740 e o capitão-mor já alegava estar a ganhar má reputação na vizinhança por não estar a conseguir a habilitação.Também o processo para familiar do Santo Ofício foi difícil tendo no entanto obtido a sua carta em Outubro de 1843. Quando o requereu era solteiro e uma testemunha, Miguel Francisco Carneiro, afirmou desconhecer se o capitão-mor tinha filhos mas sabia constar-se que tinha um filho mulato. Uma outra testemunha afirmou que em sua casa vivia um mulato de pouca idade que afirmavam ser seu filho.

Segundo Fernando Moreira de Sá Monteiro no Geneall dizia-se em Nossa Senhora do Mato Dentro que Francisco Moreira Carneiro era homem para resolver qualquer negócio de importância e que atendendo à escravatura e mais bens de que era titular, deveria possuir mais de duzentos mil cruzados. No site as Minas Gerais (www.asminasgerais.com.br) é dito que o capitão-mor Francisco Moreira Carneiro tinha 42 escravos. No já referido acordo pré-nupcial é mencionado que tem uma sociedade com Manuel Moreira Maia de onde constam roças e um engenho de cana e também  uma terça parte de uma lavra em Minas Gerais, nas Minas do Caraça, com quinze negros.

Do casamento entre o capitão-mor Francisco Moreira Carneiro e a senhora da Casa de Sá Eduarda Catarina Borges do Couto e Sá houve dois filhos, Francisco Joaquim Moreira Carneiro Borges de Sá, nascido a 14 de Abril de 1748 e a quem se deve a fábrica de papel por nós estudada e um outro, Joaquim José Moreira de Sá Barreto, este mais novo e ainda menor quando seus pais em 27 de Setembro de 1773 instituíram em escritura pública em Guimarães pelo tabelião Domingos Fernandes da Rocha o Morgadio de Sá em favor do filho primogénito. Nesta escritura são identificados diversas propriedades pertencentes à quinta de Sá; quinta do Cabo, de Serzerdelo, do Crasto e prazo do Prado, fazenda do Pinheiro, casas do Toural, S. Dâmaso e Molianas, medidas do Mourisco e S. Martinho do Conde que ficariam reservadas ao capitão-mor para seu sustento enquanto vivesse. Também para sustento de Eduarda Catarina ficaram-lhe reservadas as quintas do Casal, Tegem e Outeiro.

Francisco Joaquim Moreira Carneiro Borges de Sá é o primeiro da família a usar o apelido Moreira de Sá. Conforme já abordado nos primeiros capítulos destes apontamentos casou por duas vezes, primeiro aos 17 anos com Joseja Antónia Sotomayor Osório de Menezes, esta familiar dos Araújo de Azevedo do qual já demos conta. Deste casamento tiveram António Zeferino Moreira de Sá, Rodrigo António Moreira de Sá, Manuel António Moreira de Sá e José Xavier Moreira de Sá e Maria.  

Sobre Manuel António Moreira de Sá já dissemos que morreu na defesa da ponte de Amarante em 1809 e sobre ele foi escrito na Gazeta de Lisboa a 15 de Dezembro do mesmo ano que era Fidalgo da Casa Real e distinguiu-se na defesa do Douro contra Loison tendo sido um dos que o perseguiram até perto de Castro d’Aire. Consumou a sua gloriosa carreira na ponte de Amarante onde comandava uma partida de atiradores e foi atravessado por uma bala. Nas poucas horas que sobreviveu, sabendo ser mortal a sua ferida, proferiu: Paguei o que devia ao meu Soberano e à minha Pátria. Peço perdão a Deus e a benção a meus pais. Ninguém me chore, imitem-me. Acrescentamos que morreu solteiro. O outro irmão José Xavier também assentou praça com o irmão e serviu igualmente com distinção nas invasões francesas.

Com 53 anos, Francisco Joaquim Moreira de Sá, volta a casar, agora com Ana Peregrina Pereira Pinto de Carvalho Velho e desta teve Miguel António Moreira de Sá. Deste último ouvimos já o seu pai falar quando estava no Brasil e dizia precisar voltar para dar educação ao seu poeta.


Soubemos que teve ainda outra filha que não apuramos se do primeiro ou segundo casamento, Maria do Carmo Moreira de Sá, que foi mestra da cadeira de meninas e tomou posse em 1827. Dela é dito por Júlio Feydt em “Subsídios para a História de Campos Goytocases” pela editora Esquilo em 1979 no Rio de Janeiro que teve uma educação esmerada e pouco vulgar e fez compreender aos rotineiros que também as mulheres precisavam de educação. Foi a primeira professora pública de Campos e morreu octagenária em 17 de Maio de 1859. Sabe-se que teve um filho de nome Miguel António Herédia de Sá que foi médico e jornalista e foi fundador da Emancipadora Campista que se destinava a libertar crianças escravizadas.

11/11/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (XII)

8.2 - Os Moreira de Sá –do século XIII ao século XXI

8.2.1 - Os ancestrais

Francisco Joaquim Moreira de Sá tem origens familiares conhecidas que remontam ao século XIII. Fernando Moreira de Sá Monteiro tem-se notabilizado na pesquisa dos seus ancestrais e distancia-se dos genealogistas tradicionais no que diz respeito a Rodrigues Anes de Sá e ao casamento com Giulia Colonna filha de um senador romano. O próprio Fernando Moreira de Sá Monteiro afirma no fórum do Geneall:

“O "caso" do "pretenso" casamento de Giulia (ou Cecilia) Colonna com Rodrigo Anes de Sá, foi um dos que maior polémica me arranjou com o falecido D. Luiz Gonzaga de Lancastre e Távora, Marquês de Abrantes e Fontes, a cuja memória me curvo respeitosamente.
Não acredito muito nesse casamento, confesso. Pelo menos, nos moldes que é descrito pelos nobiliaristas desde o séc. XVI.”

Em «Sás – Subsídios para uma Genealogia» o já referido investigador afirma que tendo-se dedicado mais longamente ao estudo dos mais antigos Sás, descobriu imprecisões e dados novos que o fazem diferir do que até então se tinha escrito. O estudo começa em João Afonso de Sá, filho bastardo de Afonso Anes de Voiere, Abade de Lousada e Maria Peres,mulher solteira e que foi legitimado em 3 de Maio de 1315 pelo rei D. Dinis. João Afonso de Sá terá sido Vassalo dos reis D. Dinis, D. Afonso IV e D. Pedro I e era senhor das quintas de Sá no termo de Guimarães e de Gemunde. Terá sido casado com Maria Martins filha do senhor da quinta do Paço Velho no julgado da Feira. Há porém genealogistas que o fazem casado com Teresa Rodrigues de Berredo. Fernando Moreira de Sá Monteiro sustenta a sua tese num documento entre Rodrigues Annes de Sá e sua sobrinha Beatriz Aires, no qual esta cede em 1379 a Quinta de Sá ao seu tio. No documento é dito que Rodrigues Anes de Sá é Senhorinha de Anes de Sá são filhos de João Afonso de Sá e Maria Martins. A Quinta de Sá ficou para Senhorinha Anes de Sá em dote de casamento com Aires do Vale. É depois a filha destes, Beatriz Aires, monja no Convento de Arouca que conforme já dito devolve a quinta ao seu tio Rodrigues Anes de Sá.

Rodrigues Anes de Sá foi Cavaleiro Alcaide-mor de Gaia, Senhor dos direitos reais e rendas de Gaia e seu termo, de Vila a-par-de Gaia e seu termo, em pagamento de sua quantia para servir El-Rei com certas lanças (1373), Padroeiro de S. Miguel de Gemunde, Embaixador do Rei D. Fernando a Roma ao Papa Gregório XI, Senhor da Quinta de Sá, de Gemundo e de Drizes (concelho de Lafões), herdeiro universal do seu escudeiro Pedro Esteves do Avelar. Rodrigues Anes de Sá casou em primeiras núpcias com Mécia Rodrigues do Avelar.

Os casamentos de Rodrigues Anes de Sá são o tema central de discussão entre os antigos genealistas e a linha seguida por Fernando Moreira de Sá Monteiro. No livro dos Nobiliários de Felgueiras Gaio Rodrigues Anes de Sá foi casado com Giulia Colonna, romana filha de um senador e prima(?), sobrinha (?) ou irmã(?) de Agapito Colonna nomeado Bispo de Lisboa entre 1371 e 1380. Este Bispo foi 3º avô de Otto Colonna que foi Papa com o nome de Martinho V. Nos Nobiliários o casamento com Colonna aconteceu pelo facto de Rodrigues Anes de Sá ter permanecido em Roma como embaixador. Esta versão é confirmada por Sá de Miranda descendente da família e que viveu entre 1481 e 1558, e que se vangloria das suas boas relações com os primos Colonna. Sabe-se da sua biografia que partiu para Roma em 1521 tendo lá vivido até 1526 e lá se dava com a prima Vitória Colonna, marquesa de Pescara, poetisa de Itália e uma das mais notáveis mulheres quinhentistas que por sua vez foi uma das paixões de Michelangelo o qual lhe escreveu vários poemas. A família Sá de Miranda (Sás de Coimbra) usa na sua heráldica a coluna dourada dos Colonna, porém Fernando Moreira de Sá Monteiro diz que isso só aconteceu a partir do século XVI após os Nobiliários.

Segundo a nossa fonte Rodrigues Anes de Sá foi casado com Mécia Rodrigues de Avelar da qual teve João Rodrigues de Sá e Paio Rodrigues de Sá. O mesmo Rodrigues foi casado em segundas núpcias com Beringeira Anes da qual teve 3 filhos, Aldonça Rodrigues de Sá, Constança Rodrigues de Sá, que casou com o descobridor e povoador da Madeira, João Gonçalves Zarco e Gonçalo Anes de Sá.

Fernando Moreira de Sá Monteiro em 2003 no fórum Geneall diz então que Rodrigues Anes de Sá e Mécia já estariam casados em 1349 e que seria viúvo dela desde pelo menos 1367. O mesmo investigador admite que a haver alguma relação entre Rodrigues Anes de Sá e Giulia Colunna esta terá ocorrido muito perto do fim da vida e que não terá deixado descendentes. Sustenta que o Papa Gregório XI foi eleito em 1370/71 regressando a Roma em 1377 e faleceu no ano seguinte, tendo tido antes longa estadia em Avinhão, França. Ficamos assim com apenas intervalo de um ano para que Rodrigues Annes de Sá fosse a Roma e viesse a conhecer Giulia. Mas Fernando Moreira de Sá Monteiro adianta nova possibilidade a de que Rodrigues Annes de Sá possa ter ido a Avinhão entre 1372 e 75 conseguindo que Agapito Colonna finalmente a vir para a sede do seu bispado em Lisboa e terá sido nessas circunstâncias que a relação tenha nascido. Em todo o caso não terá havido descendência.

Há ainda uma outra versão, a de que houve dois Rodrigues Anes de Sá sendo que o primeiro casou com Mécia Rodrigues de Sá e tiveram um filho chamado de Payo Rodrigues de Sá. Este último não lhe é registado casamento, porém terá tido um filho de nome João Afonso de Sá que terá vivido entre 1291 e 1357. É dito que João Afonso de Sá é proprietário da Quinta de Sá nas proximidades de Guimarães e que Sá deriva de solar. Este casou com Teresa Rodrigues de Berredo e que tiveram um filho chamado Rodrigues Anes de Sá e uma filha Senhorinha de Sá. Este Rodrigues é apontado como o que casou com Giulia Colonna. A partir deste momento, nesta versão perde-se a sequência da linhagem dos Sá pois segue-se a indicação de uma filha Constanza Rodrigues de Sá casada com João Gonçalves Zarco descobridor e povoador da ilha da Madeira (1419 - 1420).

Não pretendemos entrar nestas discussão mas o casamento com Giulia Colonna levanta discussões em outras linhas de investigação nomeadamente no que à nacionalidade de Cristovão Colombo diz respeito por se acreditar que Colombo é o aportuguesamento do Collona.

João Rodrigues de Sá, filho de Rodrigues Anes de Sá, Camareiro-mor do rei D. João I e embaixador ao papa Bonifácio IX. Acompanhou D. João I nas expedições militares de do cerco de Lisboa, Aljubarrota e Ceuta. No cerco de Lisboa libertou uma galé apresada pelos Castelhanos tendo recebido 15 feridas no corpo e 2 na cara e fê-lo com uma só lança. Por esta acto de bravura ficou conhecido como «o das Galés». Foi também o primeiro a entrar na Vila de Guimarães na conquista da mesma. Morreu em 1425. Foi casado com Isabel Pacheco e tiveram Fernão de Sá, Gonçalo de Sá, Gomes de Sá, João Rodrigues de Sá e Mécia Rodrigues. Teve ainda bastardos, Guiomar de Sá e Rodrigo Anes de Sá. Este último teve uma filha de nome Filipa de Sá que casou com João Gonçalves de Miranda e daqui descendem os Sá de Miranda aos quais já fizemos referência.


Os nomes, casamentos, descendentes e altos cargos nobiliáticos sucedem-se até chegar a João Rodrigues de Sá, «o moço», e que entre muitos outros filhos teve um bastardo de nome Fernão de Sá que viveu em Guimarães e casou com Brites de Miranda, filha bastarda de Martim Afonso de Miranda. Destes terão descendido os Moreiras de Sá e Senhores da Quinta de Sá em Santa Eulália de Barrosas, hoje Santa Eulália de Vizela. Não pesquisamos outros elementos até chegar a Theresa Maria Borges Couto e Sá, avó materna de Francisco Joaquim Moreira de Sá, a qual por acordo pré-nupcial celebrado em 10 de Março de 1746 (em notas do tabelião Paulo Mendes Brandão, da vila de Guimarães) e na qualidade de tutora da filha Eduarda Catarina, entretanto órfã, acerta o casamento desta com Francisco Moreira Carneiro, Capitão-mor em Minas Gerais. O noivo entra com 27 mil cruzados para a quinta de Sá justificando-os com a utilidade do casamento com Eduarda Catarina por ser de bom sangue. Em contra-partida a noiva seria dotada com a quinta de Sá, constituída por três prazos de vidas, foreiros ao Convento de Santa Marinha da Costa; o prazo das bouças da Silva Verde; fazenda do Requeixo, de natureza de prazo foreiro a Santa Marinha da Costa; o prazo de S. Domingos de Guimarães e o de S. Gonçalo de Amarante; a propriedade chamada das Queirozas, em Santo Estevão de Barrosas, dízima a Deus; a fazenda do Monte, de prazos de vidas foreiros à comenda de Santa Cristina de Serzedelo e S. Martinho de Sande; a fazenda do Pinheiro, com seu privilégio das Tábuas Vermelhas de Nossa Senhora da Oliveira; os moinhos do Esquerdo, de seis rodas, de natureza de prazo foreiro a S. Domingos de Guimarães. Consta ainda uma morada de casas de sobrado na rua Nova do Muro, duas no Toural e todas as que tinha na rua de Santa Luzia na vila de Guimarães.
(seguinte)