14/11/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (XIII)

8.2 - Os Moreira de Sá –do século XIII ao século XXI

8.2.2 - De Francisco Moreira Carneiro aos Netos

Francisco Moreira Carneiro foi capitão-mor em em Nossa Senhora da Conceição de Mato Dentro, distrito de Serro Frio em Minas Gerais no Brasil, nasceu em 17 de Abril de 1690 em S. Pedro de Sousa, Aguiar de Sousa, foi cavaleiro-fidalgo de sua majestade por decreto régio de 1750, professo da Ordem de Cristo, familiar do Santo Ofício, fidalgo de cota de armas, senhor da quinta do Assento em Santa Cristina de Sezerdelo. Faleceu em 16 de Novembro de 1778 em Barrosas e foi sepultado na capela da Casa de Sá.

Fora ainda moço para o Brasil e seria oficial de carpinteiro quando se ausentou. Os seus pais e avós foram lavradores, cristãos velhos e de boas fazendas. Sabe-se no entanto que teve dificuldade em obter habilitação para a Ordem de Cristo, por ter sido carpinteiro de engenhos em Minas Gerais e ter minerado com escravos embora já fosse capitão de ordenança. Transparece o percurso de homem que não sendo propriamente do mais baixo grau social era desprovido de fidalguia e que obteve lugar na mais alta nobreza de então pelo percurso que fez no Brasil e pelo bom casamento com Eduarda Catarina.

Para a habilitação à Ordem de Cristo foram ouvidas várias testemunhas e tinha documentos de recomendação do Governador de Minas Gerais assegurando os seus bons serviços inclusive assegurando que foi ajudado por Francisco Moreia Carneiro contra um levantamento do povo. O processo iniciado em 1735 foi concluído em 1740 e o capitão-mor já alegava estar a ganhar má reputação na vizinhança por não estar a conseguir a habilitação.Também o processo para familiar do Santo Ofício foi difícil tendo no entanto obtido a sua carta em Outubro de 1843. Quando o requereu era solteiro e uma testemunha, Miguel Francisco Carneiro, afirmou desconhecer se o capitão-mor tinha filhos mas sabia constar-se que tinha um filho mulato. Uma outra testemunha afirmou que em sua casa vivia um mulato de pouca idade que afirmavam ser seu filho.

Segundo Fernando Moreira de Sá Monteiro no Geneall dizia-se em Nossa Senhora do Mato Dentro que Francisco Moreira Carneiro era homem para resolver qualquer negócio de importância e que atendendo à escravatura e mais bens de que era titular, deveria possuir mais de duzentos mil cruzados. No site as Minas Gerais (www.asminasgerais.com.br) é dito que o capitão-mor Francisco Moreira Carneiro tinha 42 escravos. No já referido acordo pré-nupcial é mencionado que tem uma sociedade com Manuel Moreira Maia de onde constam roças e um engenho de cana e também  uma terça parte de uma lavra em Minas Gerais, nas Minas do Caraça, com quinze negros.

Do casamento entre o capitão-mor Francisco Moreira Carneiro e a senhora da Casa de Sá Eduarda Catarina Borges do Couto e Sá houve dois filhos, Francisco Joaquim Moreira Carneiro Borges de Sá, nascido a 14 de Abril de 1748 e a quem se deve a fábrica de papel por nós estudada e um outro, Joaquim José Moreira de Sá Barreto, este mais novo e ainda menor quando seus pais em 27 de Setembro de 1773 instituíram em escritura pública em Guimarães pelo tabelião Domingos Fernandes da Rocha o Morgadio de Sá em favor do filho primogénito. Nesta escritura são identificados diversas propriedades pertencentes à quinta de Sá; quinta do Cabo, de Serzerdelo, do Crasto e prazo do Prado, fazenda do Pinheiro, casas do Toural, S. Dâmaso e Molianas, medidas do Mourisco e S. Martinho do Conde que ficariam reservadas ao capitão-mor para seu sustento enquanto vivesse. Também para sustento de Eduarda Catarina ficaram-lhe reservadas as quintas do Casal, Tegem e Outeiro.

Francisco Joaquim Moreira Carneiro Borges de Sá é o primeiro da família a usar o apelido Moreira de Sá. Conforme já abordado nos primeiros capítulos destes apontamentos casou por duas vezes, primeiro aos 17 anos com Joseja Antónia Sotomayor Osório de Menezes, esta familiar dos Araújo de Azevedo do qual já demos conta. Deste casamento tiveram António Zeferino Moreira de Sá, Rodrigo António Moreira de Sá, Manuel António Moreira de Sá e José Xavier Moreira de Sá e Maria.  

Sobre Manuel António Moreira de Sá já dissemos que morreu na defesa da ponte de Amarante em 1809 e sobre ele foi escrito na Gazeta de Lisboa a 15 de Dezembro do mesmo ano que era Fidalgo da Casa Real e distinguiu-se na defesa do Douro contra Loison tendo sido um dos que o perseguiram até perto de Castro d’Aire. Consumou a sua gloriosa carreira na ponte de Amarante onde comandava uma partida de atiradores e foi atravessado por uma bala. Nas poucas horas que sobreviveu, sabendo ser mortal a sua ferida, proferiu: Paguei o que devia ao meu Soberano e à minha Pátria. Peço perdão a Deus e a benção a meus pais. Ninguém me chore, imitem-me. Acrescentamos que morreu solteiro. O outro irmão José Xavier também assentou praça com o irmão e serviu igualmente com distinção nas invasões francesas.

Com 53 anos, Francisco Joaquim Moreira de Sá, volta a casar, agora com Ana Peregrina Pereira Pinto de Carvalho Velho e desta teve Miguel António Moreira de Sá. Deste último ouvimos já o seu pai falar quando estava no Brasil e dizia precisar voltar para dar educação ao seu poeta.


Soubemos que teve ainda outra filha que não apuramos se do primeiro ou segundo casamento, Maria do Carmo Moreira de Sá, que foi mestra da cadeira de meninas e tomou posse em 1827. Dela é dito por Júlio Feydt em “Subsídios para a História de Campos Goytocases” pela editora Esquilo em 1979 no Rio de Janeiro que teve uma educação esmerada e pouco vulgar e fez compreender aos rotineiros que também as mulheres precisavam de educação. Foi a primeira professora pública de Campos e morreu octagenária em 17 de Maio de 1859. Sabe-se que teve um filho de nome Miguel António Herédia de Sá que foi médico e jornalista e foi fundador da Emancipadora Campista que se destinava a libertar crianças escravizadas.

11/11/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (XII)

8.2 - Os Moreira de Sá –do século XIII ao século XXI

8.2.1 - Os ancestrais

Francisco Joaquim Moreira de Sá tem origens familiares conhecidas que remontam ao século XIII. Fernando Moreira de Sá Monteiro tem-se notabilizado na pesquisa dos seus ancestrais e distancia-se dos genealogistas tradicionais no que diz respeito a Rodrigues Anes de Sá e ao casamento com Giulia Colonna filha de um senador romano. O próprio Fernando Moreira de Sá Monteiro afirma no fórum do Geneall:

“O "caso" do "pretenso" casamento de Giulia (ou Cecilia) Colonna com Rodrigo Anes de Sá, foi um dos que maior polémica me arranjou com o falecido D. Luiz Gonzaga de Lancastre e Távora, Marquês de Abrantes e Fontes, a cuja memória me curvo respeitosamente.
Não acredito muito nesse casamento, confesso. Pelo menos, nos moldes que é descrito pelos nobiliaristas desde o séc. XVI.”

Em «Sás – Subsídios para uma Genealogia» o já referido investigador afirma que tendo-se dedicado mais longamente ao estudo dos mais antigos Sás, descobriu imprecisões e dados novos que o fazem diferir do que até então se tinha escrito. O estudo começa em João Afonso de Sá, filho bastardo de Afonso Anes de Voiere, Abade de Lousada e Maria Peres,mulher solteira e que foi legitimado em 3 de Maio de 1315 pelo rei D. Dinis. João Afonso de Sá terá sido Vassalo dos reis D. Dinis, D. Afonso IV e D. Pedro I e era senhor das quintas de Sá no termo de Guimarães e de Gemunde. Terá sido casado com Maria Martins filha do senhor da quinta do Paço Velho no julgado da Feira. Há porém genealogistas que o fazem casado com Teresa Rodrigues de Berredo. Fernando Moreira de Sá Monteiro sustenta a sua tese num documento entre Rodrigues Annes de Sá e sua sobrinha Beatriz Aires, no qual esta cede em 1379 a Quinta de Sá ao seu tio. No documento é dito que Rodrigues Anes de Sá é Senhorinha de Anes de Sá são filhos de João Afonso de Sá e Maria Martins. A Quinta de Sá ficou para Senhorinha Anes de Sá em dote de casamento com Aires do Vale. É depois a filha destes, Beatriz Aires, monja no Convento de Arouca que conforme já dito devolve a quinta ao seu tio Rodrigues Anes de Sá.

Rodrigues Anes de Sá foi Cavaleiro Alcaide-mor de Gaia, Senhor dos direitos reais e rendas de Gaia e seu termo, de Vila a-par-de Gaia e seu termo, em pagamento de sua quantia para servir El-Rei com certas lanças (1373), Padroeiro de S. Miguel de Gemunde, Embaixador do Rei D. Fernando a Roma ao Papa Gregório XI, Senhor da Quinta de Sá, de Gemundo e de Drizes (concelho de Lafões), herdeiro universal do seu escudeiro Pedro Esteves do Avelar. Rodrigues Anes de Sá casou em primeiras núpcias com Mécia Rodrigues do Avelar.

Os casamentos de Rodrigues Anes de Sá são o tema central de discussão entre os antigos genealistas e a linha seguida por Fernando Moreira de Sá Monteiro. No livro dos Nobiliários de Felgueiras Gaio Rodrigues Anes de Sá foi casado com Giulia Colonna, romana filha de um senador e prima(?), sobrinha (?) ou irmã(?) de Agapito Colonna nomeado Bispo de Lisboa entre 1371 e 1380. Este Bispo foi 3º avô de Otto Colonna que foi Papa com o nome de Martinho V. Nos Nobiliários o casamento com Colonna aconteceu pelo facto de Rodrigues Anes de Sá ter permanecido em Roma como embaixador. Esta versão é confirmada por Sá de Miranda descendente da família e que viveu entre 1481 e 1558, e que se vangloria das suas boas relações com os primos Colonna. Sabe-se da sua biografia que partiu para Roma em 1521 tendo lá vivido até 1526 e lá se dava com a prima Vitória Colonna, marquesa de Pescara, poetisa de Itália e uma das mais notáveis mulheres quinhentistas que por sua vez foi uma das paixões de Michelangelo o qual lhe escreveu vários poemas. A família Sá de Miranda (Sás de Coimbra) usa na sua heráldica a coluna dourada dos Colonna, porém Fernando Moreira de Sá Monteiro diz que isso só aconteceu a partir do século XVI após os Nobiliários.

Segundo a nossa fonte Rodrigues Anes de Sá foi casado com Mécia Rodrigues de Avelar da qual teve João Rodrigues de Sá e Paio Rodrigues de Sá. O mesmo Rodrigues foi casado em segundas núpcias com Beringeira Anes da qual teve 3 filhos, Aldonça Rodrigues de Sá, Constança Rodrigues de Sá, que casou com o descobridor e povoador da Madeira, João Gonçalves Zarco e Gonçalo Anes de Sá.

Fernando Moreira de Sá Monteiro em 2003 no fórum Geneall diz então que Rodrigues Anes de Sá e Mécia já estariam casados em 1349 e que seria viúvo dela desde pelo menos 1367. O mesmo investigador admite que a haver alguma relação entre Rodrigues Anes de Sá e Giulia Colunna esta terá ocorrido muito perto do fim da vida e que não terá deixado descendentes. Sustenta que o Papa Gregório XI foi eleito em 1370/71 regressando a Roma em 1377 e faleceu no ano seguinte, tendo tido antes longa estadia em Avinhão, França. Ficamos assim com apenas intervalo de um ano para que Rodrigues Annes de Sá fosse a Roma e viesse a conhecer Giulia. Mas Fernando Moreira de Sá Monteiro adianta nova possibilidade a de que Rodrigues Annes de Sá possa ter ido a Avinhão entre 1372 e 75 conseguindo que Agapito Colonna finalmente a vir para a sede do seu bispado em Lisboa e terá sido nessas circunstâncias que a relação tenha nascido. Em todo o caso não terá havido descendência.

Há ainda uma outra versão, a de que houve dois Rodrigues Anes de Sá sendo que o primeiro casou com Mécia Rodrigues de Sá e tiveram um filho chamado de Payo Rodrigues de Sá. Este último não lhe é registado casamento, porém terá tido um filho de nome João Afonso de Sá que terá vivido entre 1291 e 1357. É dito que João Afonso de Sá é proprietário da Quinta de Sá nas proximidades de Guimarães e que Sá deriva de solar. Este casou com Teresa Rodrigues de Berredo e que tiveram um filho chamado Rodrigues Anes de Sá e uma filha Senhorinha de Sá. Este Rodrigues é apontado como o que casou com Giulia Colonna. A partir deste momento, nesta versão perde-se a sequência da linhagem dos Sá pois segue-se a indicação de uma filha Constanza Rodrigues de Sá casada com João Gonçalves Zarco descobridor e povoador da ilha da Madeira (1419 - 1420).

Não pretendemos entrar nestas discussão mas o casamento com Giulia Colonna levanta discussões em outras linhas de investigação nomeadamente no que à nacionalidade de Cristovão Colombo diz respeito por se acreditar que Colombo é o aportuguesamento do Collona.

João Rodrigues de Sá, filho de Rodrigues Anes de Sá, Camareiro-mor do rei D. João I e embaixador ao papa Bonifácio IX. Acompanhou D. João I nas expedições militares de do cerco de Lisboa, Aljubarrota e Ceuta. No cerco de Lisboa libertou uma galé apresada pelos Castelhanos tendo recebido 15 feridas no corpo e 2 na cara e fê-lo com uma só lança. Por esta acto de bravura ficou conhecido como «o das Galés». Foi também o primeiro a entrar na Vila de Guimarães na conquista da mesma. Morreu em 1425. Foi casado com Isabel Pacheco e tiveram Fernão de Sá, Gonçalo de Sá, Gomes de Sá, João Rodrigues de Sá e Mécia Rodrigues. Teve ainda bastardos, Guiomar de Sá e Rodrigo Anes de Sá. Este último teve uma filha de nome Filipa de Sá que casou com João Gonçalves de Miranda e daqui descendem os Sá de Miranda aos quais já fizemos referência.


Os nomes, casamentos, descendentes e altos cargos nobiliáticos sucedem-se até chegar a João Rodrigues de Sá, «o moço», e que entre muitos outros filhos teve um bastardo de nome Fernão de Sá que viveu em Guimarães e casou com Brites de Miranda, filha bastarda de Martim Afonso de Miranda. Destes terão descendido os Moreiras de Sá e Senhores da Quinta de Sá em Santa Eulália de Barrosas, hoje Santa Eulália de Vizela. Não pesquisamos outros elementos até chegar a Theresa Maria Borges Couto e Sá, avó materna de Francisco Joaquim Moreira de Sá, a qual por acordo pré-nupcial celebrado em 10 de Março de 1746 (em notas do tabelião Paulo Mendes Brandão, da vila de Guimarães) e na qualidade de tutora da filha Eduarda Catarina, entretanto órfã, acerta o casamento desta com Francisco Moreira Carneiro, Capitão-mor em Minas Gerais. O noivo entra com 27 mil cruzados para a quinta de Sá justificando-os com a utilidade do casamento com Eduarda Catarina por ser de bom sangue. Em contra-partida a noiva seria dotada com a quinta de Sá, constituída por três prazos de vidas, foreiros ao Convento de Santa Marinha da Costa; o prazo das bouças da Silva Verde; fazenda do Requeixo, de natureza de prazo foreiro a Santa Marinha da Costa; o prazo de S. Domingos de Guimarães e o de S. Gonçalo de Amarante; a propriedade chamada das Queirozas, em Santo Estevão de Barrosas, dízima a Deus; a fazenda do Monte, de prazos de vidas foreiros à comenda de Santa Cristina de Serzedelo e S. Martinho de Sande; a fazenda do Pinheiro, com seu privilégio das Tábuas Vermelhas de Nossa Senhora da Oliveira; os moinhos do Esquerdo, de seis rodas, de natureza de prazo foreiro a S. Domingos de Guimarães. Consta ainda uma morada de casas de sobrado na rua Nova do Muro, duas no Toural e todas as que tinha na rua de Santa Luzia na vila de Guimarães.
(seguinte)

19/10/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (XI)

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7 - Francisco Joaquim Moreira de Sá, e a História do Papel no Brasil.

Encontra-se em literatura brasileira que Francisco Joaquim Moreira de Sá era um velho ilustre fidalgo português que emigrou para o Brasil na companhia d’El Rei D. João VI e que uma vez lá chegado não se constituiu pensionista do Rei como quase todos o fizeram, tratou antes de se retirar para a sua fazenda em Santo António de Rio Abaixo em Minas Gerais. Era parente do Ministro António de Araújo de Azevedo e muito influente no Paço e a sua casa tornou-se no ponto de reunião da elite mineira.

Esta descrição que no Brasil se faz de Moreira de Sá é ilustrativa da sua personalidade e capacidade de iniciativa. Podemos acrescentar; persistência, pois uma vez no Brasil, longe da fábrica que criara, continua a perseguir o sonho de fabricar papel com pasta de madeira. Rui Moreira de Sá e Guerra referencia oito cartas escritas por Francisco Joaquim Moreira de Sá a António de Araújo de Azevedo entre Agosto de 1813 e Junho de 1815. Na terceira dessas cartas, em Outubro de 2013, Moreira de Sá fala das suas intenções para montar uma fábrica de papel em ponto pequeno dizendo saber-se informado de que António de Araújo de Azevedo iria solicitar ao Conde de Aguiar que expeça um Aviso ao Sr. Palma para proteger a dita fábrica. Alguns meses depois, em Março de 1814, em nova carta desabafa que não obstante os bons resultados que tem conseguido nas experiências para a fábrica de papel, são necessários muitos desembolsos, com os quais poderia facilmente caso os seus devedores lhe pagassem e acrescenta que uns estão falidos e outros é necessário dar-lhes espera para que possam ir pagando. Acrescenta que lhe resta vender à Fazenda Real as águas e lavras que tem no Morro de Gaspar Soares (hoje Morro do Pilar).

Já antes nestes apontamentos dissemos que Francisco Joaquim Moreira de Sá havia sido ajudado por António de Araújo de Azevedo para a instalação da fábrica da Cascalheira. Julgamos que se dúvidas houvesse sobre essa parceria é tema que fica esclarecido com estas oito cartas. Nelas fala-se de negócios e entende-se que alguns são comuns a ambos. Na segunda carta em Setembro de 1813, Francisco Joaquim Moreira de Sá fala num negócio de mineração no Morro da Cachaça sobre o qual recebeu uns papeis que não perdeu tempo a ler e os remeteu rapidamente ao destinatário da carta, António de Araújo de Azevedo. Ainda antes das invasões francesas o futuro Conde da Barca propôs-se instalar uma fiação e tecelagem em Arcos de Valdevez em propriedades suas e nessa altura, a 22 de Janeiro de 1806, Francisco Joaquim Moreira de Sá escreve-lhe prestando o seu parecer e diligências para conseguir sócios.

Em Outubro de 1814 volta a escrever dizendo que decidiu não vender as águas e lavras do Morro de Gaspar Soares, pensando antes sorteá-las numa lotaria sendo porém necessário licença para esse fim. Com essa transacção teria capital suficiente para se associar a outra pessoa e estabelecer a fábrica na fazenda de Santo António, para logo a seguir a vender e voltar para Portugal remediar as desordens da sua ausência e gozar da felicidade da Europa e dar boa educação ao seu poeta, referia-se ao filho Miguel António Moreira de Sá. Numa sexta carta, esta sem data é dito já ter recebido ordem para apresentar o plano de jogo para a lotaria e continua dizendo que Sua Alteza o deveria isentar de sisa em atenção à fábrica que pretende construir. Na mesma carta diz: «Temos aqui muitas embiras, e outras plantas que sem dependência de branqueação dão excelente Papel; as que precizão branquear-se ficão para papel pintado, embrulho, polvilho, etec. Não trato de celindros nem de maquenismos complicados; quero pagar dívidas, e o dinheiro, e os Artífeces não chegão a tanto: com piloens farei muito Papel e obtida que seja a licença para a Lotaria em poucos meses o teremos: tais são as proporçoens em que me acho: pelo tempo adiante, ou eu ou os que ficarem com a Fazenda e com a Fábrica, a poderão levar a maior tempo».
No livro das decisões da legislação brasileira do Arquivo da Câmara dos Deputados encontra-se a 26 de Maio de 1815 a licença para uma lotaria a Francisco Joaquim Moreira de Sá para a instalação de uma fábrica de papel ma fazenda de Santo António de Rio Abaixo, capitania de Minas Gerais. É depois em carta de Junho de 1815 que Moreira de Sá dá conta de que recebeu a licença para a lotaria em carta do ministro António de Araújo a quem escreve a agradecer.

Moreira de Sá escreve um última carta da qual se desconhece a data a António de Araújo de Azevedo onde diz que já tem uma fábrica em ponto pequeno que faz papel e que conforme já antes havia dito tenciona vendê-la. Acrescenta que a fazenda onde está instalada a fábrica é imensa mas não logrou. Já na terceira carta em 1813, Francisco Joaquim Moreira de Sá dava conta de que a fazenda tinha sofrido maus tratos e não conseguia tirar dela os rendimentos necessários. Acrescenta que para a venda da fábrica e da fazenda está interessado em receber dinheiro à vista e por isso também pensa em nova lotaria. Fala ainda do negócio de mineração no qual deposita muitas esperanças. Francisco Joaquim Moreira de Sá aparenta estar necessitado da realização dinheiro e também terá usado a fábrica de papel como forma de valorizar a fazenda que estava, como ele disse, mal tratada.

Esta última carta não está datada, mas é na certeza posterior a 17 de Dezembro de 1815, data em que António de Araújo de Azevedo foi agraciado com o título de Conde da Barca e, já assim é tratado na respectiva missiva. Diz Rui Moreira de Sá e Guerra que na viagem de  regresso a Portugal Francisco Joaquim Moreira de Sá terá sido roubado por piratas que lhe levaram todo o aforro, pelo menos assim consta na tradição da família. Não conseguimos no entanto apurar a data do regresso pois ajudar-nos ia a balizar quando erigiu a fábrica no Brasil. Não sendo objectivo destes apontamentos aprofundar a História das fábricas de papel na antiga colónia portuguesa, não passamos porém sem uma breve referência. Em diversa literatura brasileira é dito que a primeira fábrica de papel no Brasil foi construída por Henrique Nunes Cardoso e Joaquim José da Silva, dois portugueses, em 1810 em Andaraí Pequeno perto do Rio de Janeiro e produziria papel com fibra de bananeira. Seria um engenho pequeno pois lê-se em «A Celulose de Eucalipto – Uma oportunidade brasileira» de Luiz de Souza Queiroz e Luiz Ernesto George Barrichelo patrocinado pelo Grupo Votarantim Celulose de Papel que a fabriqueta dos portugueses não durou muito e que D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal em 1826 escreveu uma carta à marquesa de Santos, Maria Domitila, afirmando: “Bem desejei que esta lhe fosse escrita em papel brasileiro da fábrica, mas por ora não o há, o que em pouco espero não o seja”.


Fica esclarecido que a indústria de papel no Brasil dá os primeiros passos com a instalação da corte portuguesa no Brasil, Henrique Nunes Cardoso e Joaquim José da Silva, também terão seguido para o Brasil com D. João VI, do mesmo modo que Francisco Joaquim Moreira de Sá. Mas quem eram esses dois que do outro lado do Atlântico se anteciparam a Moreira de Sá? Não conseguimos saber, em todo o caso estranhamos que não se encontrem referências a Francisco Joaquim Moreira de Sá em relação ao fabrico de papel no Brasil, mais estranhamos porque ambos os outros são anónimos nesta actividade em Portugal, ou pelo menos no que ao uso de material vegetal diz respeito e dois anos após chegarem ao Brasil já estão a produzir papel com fibras de bananeira! Em todo o caso todas as referências que encontramos pareciam cópias textuais umas das outras, o que nos leva a crer que a História do papel no Brasil está por contar. 

(seguinte)

28/09/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (X)


8 - Personagens e Contexto Familiar

8.1 Família Álvares Ribeiro

Iniciamos o penúltimo capítulo destes apontamentos com um breve estudo sobre a família Álvares Ribeiro. Os pais do fundador da fábrica de papel instalada em Moreira de Cónegos foram António Álvares Ribeiro Guimarães e Luísa Albina de Santa Rosa, o primeiro nascido em 1749  e a segunda em nascida em 1760. O patriarca seria natural de Vizela e veio a estabelecer-se no Porto como livreiro, sobre esta sua actividade há de facto uma vasta referência disponível na Internet. Desde logo em «A Actividade Livreira no Porto no Século XVIII» de Maria Adelaide de Azevedo Meireles é dito que a actividade estava tradicionalmente nas mãos de uma mesma família e refere o exemplo da família Álvares Ribeiro classificando-a como uma importante família de livreiros da cidade do Porto. Este teria oficina na rua de S. Miguel e loja na rua das Flores, onde se concentravam quase 90 livreiros. A mesma obra refere que a oficina de Álvares Ribeiro publicou um grande número de obras de teatro. Encontram-se, também, muitas outras publicações atribuídas a esta oficina em domínios como a medicina, farmacologia e artes literárias. Por curiosidade, aquando do estudo sobre a guerra peninsular e as suas consequências na fábrica de papel da Cascalheira, registamos a publicação de um jornal de campanha contra os franceses impresso na oficina desta família.

1774 terá sido a data do falecimento de António Álvares Ribeiro Guimarães e a sua esposa Luísa Albina de Santa Rosa assume o negócio passando a oficina a designar-se Viúva Álvares Ribeiro & Filhos. O filho do casal, António Álvares Ribeiro havia nascido em 1760, tinha por isso 14 anos e estava quase preparado para assumir o negócio da família. Esta terá sido uma época de grande produção pois são muitas as publicações assinadas com esta designação.

António Álvares Ribeiro terá sido o grande impulsionador do negócio da família, é com ele que é aberta a já mencionada loja na rua das flores e a fábrica de papel em Moreira de Cónegos, nas imediações de Vizela. Este casa-se com Maria Máxima Delfina da Silva e em 1803 nasce o filho Joaquim Torcato Álvares Ribeiro que viria a ser um conceituado matemático e professor na Academia Politécnica do Porto o qual também esteve presente em momentos importantes da respectiva Academia. Discursou em 1846 na abertura solene do ano lectivo, em 1852 recebeu a rainha D. Maria II aquando da visita à Academia tendo na época sensibilizado a rainha para a falta que faziam os laboratórios. Em 30 de Novembro teve a seu cargo a visita de D. Luís. Em Novembro de 1864 assumiu funções de director interino e em 1868 indigitado director efectivo da Academia, não tendo porém chegado a tomar posse.

Joaquim Torcato Álvares Ribeiro também foi director da Companhia Geral da Agricultura e das Vinhas do Alto Douro entre 1852 e 1855, proprietário do jornal Periódico dos Pobres, tendo o Jardim Botânico do Porto sido construído a expensas suas. Faleceu em Vizela em 1868. Do que podemos saber terá sido filho único de seus pais e por isso também terá prosseguido com o negócio familiar de livros e indústria de papel.

Feito este enquadramento voltemos-nos para o fórum do site Geneall, concretamente para o autor Manuel Maria Magalhães, que entretanto soubemos recentemente falecido, e assinava como Magalp. Os Álvares Ribeiro surgem na primeira metade do século XVIII com o casamento de António Álvares e Joana Ribeiro, naturais de Vizela. Foi deste casamento que nasceu António Álvares Ribeiro Guimarães que como vimos se estabeleceu no Porto como livreiro. É dito por Manuel Maria Magalhães que os Álvares eram oriundos de Tomar e que já aí haviam um negócio de impressão. Desta família destaca-se Joaquim Torcato Álvares Ribeiro e que os seus descendentes se consideram bons burgueses olhando com desconfiança para os fidalgos de velhas linhagens, por costume valorizam a ciência, a cultura e as belas artes, sendo talvez por isso que desta família sairam tantos e bem sucedidos professores universitários.

Maria Máxima Cabral Álvares Ribeiro, madre da Congregação de Santa Doroteia foi tia-avó de Manuel Maria Magalhães autor do texto do site Geneall. Esta religiosa nascida em 1873 e falecida em 1944 era neta de Joaquim Torcato Álvares Ribeiro. Seu pai Alberto Álvares Ribeiro foi um dos 5 filhos do prestigiado matemático. Já neste apontamentos referimos que foi Maria Máxima Cabral Álvares Ribeiro quem por volta de 1940 vendeu a queda de água que pertenceu à fábrica de papel desactivada alguns anos antes. Pensamos que quem a terá comprado foi João Pereira Magalhães da Têxtil de Vizela empresa ainda a laborar e que fundou em 1935.


Na actualidade a família Álvares Ribeiro continua  a ser reconhecida pelos cargos que ocupa, após a morte do Eng.º Torquato Sottomayor Álvares Ribeiro destaca-se o prof. Dr. Agostinho de Sousa Guedes Álvares Ribeiro autor da publicação «Barragens do tipo abóbada parabólica – Cálculo dos arcos» e vice-presidente para a metrópole do Agrupamento Português de Mecânica dos Solos da Sociedade Portuguesa de Geotecnia entre 1967 e 1971 e que foi sócio do Eng.º João de Barros Gomes Álvares Ribeiro na empresa gestão de projectos e obras, Álvares Ribeiro, Lda. 

(continua)