23/09/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (IX)

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6 – As Ruínas da Fábrica da Cascalheira
6.2 - Ponte da Cascalheira

Júlio César Ferreira nos seus fotoblogues identifica a ponte da Cascalheira como sendo vestígio arqueológico da fábrica de papel de Francisco Joaquim Moreira de Sá, não encontramos porém qualquer outro autor que fizesse referência ao assunto. Ainda procuramos no blogue Dias com Árvores a transcrição de um texto de José Duarte de Oliveira publicado em 1886 no Jornal de Horticultura Práctica e que relata as obras então a decorrer para a construção do parque das termas. Ora estas grandiosas obras, um dos mais importantes trabalhos de jardinagem feitos no país conforme palavras do autor, situavam-se na margem oposta da quinta da Cascalheira e decorreram menos de um século depois da edificação da fábrica de papel, tínhamos por isso a expectativa de que nos desse pistas quanto à existência ou não da ponte da Cascalheira, porém omite-a por completo. Talvez possamos entender a omissão no relato das obras significa que a ponte não fez parte destas. Na memória colectiva local a fábrica de papel e o parque das termas foram as maiores intervenções que ocorreram no local, juntando-se nos nossos dias o empreendimento imobiliário do Poço Quente e requalificação ribeirinha. Para o nosso estudo juntamos ainda fotos do local nos primeiros anos do século XX onde se vê a ponte da Cascalheira já edificada.

A ponte da Cascalheira esteve até 2009 sem utilização e só após intervenção de reconstrução se transformou em ponte pedonal. A estrutura original consistia em duas vigas de ferro fundido em H constituídas por várias lâminas unidas e rebitadas entre si. O comprimento total é de quase 20 metros e sensivelmente 1 metro de altura. Estas vigas paralelamente colocadas e também distanciadas a sensivelmente 2 metros uma da outra eram travadas entre si por sucessivas longarinas cruzadas. Ambas assentam nas margens em dois paredões graníticos que se assemelham a torreões. Estas vigas encontram-se sob o actual tabuleiro mas não fazem parte da nova estrutura.

O tipo de construção era invulgar à época da fábrica da Cascalheira e remete-nos a uma outra investigação: qual a cronologia do uso do ferro em edificações? Soubemos que foi em 1776 que pela primeira vez se utilizou ferro na construção de pontes e aconteceu em Inglaterra, contudo a sua massificação só viria a acontecer a partir da segunda metade do século XIX. Ora por volta do ano 1800 seria de esperar que uma ponte particular fosse construída em pedra e madeira. Seria então possível que a ponte da Cascalheira tivesse pertencido à fábrica de papel?

Vamos recuar ao estudo de Rui Moreira de Sá segundo o qual a fábrica não chegou a ser construída na totalidade pelo que o canal que provinha da quinta de Lagoas nunca chegou a ser construído. No terceiro capítulo destes apontamentos aquando da abordagem aos contratos de compra e venda celebrados por Francisco Joaquim Moreira de Sá fizemos referência às indemnizações previstas pelos prejuízos causados pela construção do canal. Em consequência os herdeiros de Moreira de Sá entenderam que deviam ser ressarcidos pois se o canal não foi construído os prejuízos também não ocorreram. A 6 de Janeiro de 1838 Valentim Brandão Moreira de Sá Sotomaior em representação de Maria Bebiana de Carvalho e Costa viúva de Miguel António Moreira de Sá e seus filhos menores juntamente com o Reverendo José de Abreu Cardoso Teixeira Cónego da Colegiada da Oliveira, Guimarães, como cabeça de casal da herança de seus país, os donos da quinta de Lagoas celebraram, em escritura pública contrato para restituição de 350 mil reis. Porém como do negócio com Francisco Joaquim Moreira de Sá tinha feito parte a compra de muitas madeiras para a construção da fábrica foi ajustada indemnização para 242 mil reis. Reportando a quinta de Lagoas ao actual lugar com o mesmo nome esta ficaria na margem direita do rio portanto a montante da quinta da Cascalheira e na margem oposta. Ora todas as madeiras teriam de ser transportadas para a futura fábrica. Claro que as podiam fazer atravessar o rio lançado-as ao mesmo para depois serem içadas através de cordas, mas isso não podia ser feito no Inverno nem resolveria de forma definitiva o abastecimento de materiais à fábrica. A ponte mais próxima seria a romana aproximadamente 1km a jusante da quinta da Cascalheira, fazia então todo o sentido a existência de uma ponte contígua à fábrica e que fosse suficientemente robusta. Recordemos que a fábrica iria produzir papel através de material lenhoso, lenhas e madeiras que teriam que chegar à fábrica em quantidade suficiente para a sua laboração.

O transporte de madeira pode ter sido um dos motivos para a existência de uma ponte robusta próxima da fábrica mas seria possível em 1800 proceder à sua construção em ferro? Ora cronologicamente já vimos que é possível embora o uso do ferro não fosse ainda uma constante. Homens com essa vontade também teríamos pois sabemos que Francisco Joaquim Moreira de Sá era vanguardista quanto à introdução de novas tecnologias e profundo admirador do movimento de industrialização inglês onde cerca de 30 anos antes se havia construído a primeira ponte em ferro. A este podíamos ainda juntar o director técnico da fábrica, o engenheiro inglês Thomas Bishop. Construir em Portugal uma ponte como a da Cascalheira em 1800 não seria fácil pois é pouco provável que existissem fundições no nosso país para o fabrico dos elementos necessários. As barras de ferro da ponte terão então sido transportadas de Inglaterra para Vizela.

É uma teoria mas faltam-nos conhecimentos suficientes para a confirmar, em todo o caso a ser verdade a ponte da Cascalheira terá sido uma das primeiras, senão a primeira a ser construída em ferro em Portugal. Claro que não se trata de uma pequena ponte mas pode significar muito arrojo tê-la construído em ferro.

Voltando ainda a Júlio César Ferreira e ao seu arquivo fotográfico, nele consta um postal que regista uma panorâmica da quinta da Cascalheira sendo que no local que corresponderá ao actual bar de apoio à praia fluvial existe um amontoado de pedras que o próprio supõe serem ruínas da fábrica. Entretanto em notas de Fernando Moreira de Sá Monteiro no site Geneall reportando ao manuscrito “Os Sás de Vizela: Moreiras de Sá – Memórias históricas, genealógicos e heráldicas” é feita uma referência a um inventário requerido em 1842 por D. Maria Marfida Moreira de Sá, neta de Francisco Joaquim Moreira de Sá no qual consta a grande casa da fábrica de papel e a herdade da quinta da Cascalheira onde a dita casa está erigida. Sem inequívocos confirmamos que o edifício da fábrica sobreviveu às invasões francesas.

Em 1886, José Augusto Vieira em o Minho Pitoresco relata os encantos de Vizela e deixa-se embebecer pelos namoricos na praia fluvial da Cascalheira. O autor vem pela igreja de S. João e atravessa pelo parque em construção para passar um fim de tarde bucólico na Cascalheira. O autor relata como os afoitos atravessam o rio na Cascalheira, pé entre pé, saltitando pelas pedras até ao moinho na margem esquerda. Nada de ponte! Nada da grande casa da fábrica! Só um moinho! As personagens dos relatos de José Augusto Vieira que se aventuram a atravessar o rio por entre as pedras são novos e caídos de amores, é por isso entendivel o romantismo de tal travessia. Já os mais velhos e gordos, como diz o autor, não se atrevem a passar e deixam-se ficar deitados à sombra na margem direita, porém se a ponte estivesse ao pé provavelmente seria atravessada a menos que, como antes da  sua recuperação em 2009, não tenha utilização possível pela falta de tabuleiro. Não temos memória dela de outro modo.

Estamos pouco convencidos de que a ponte existisse em 1886 e assim se arruína toda a teoria de que esta seja o único vestígio da fábrica de papel de Francisco Joaquim Moreira de Sá. Vejamos que certamente José Augusto Vieira a não omitiria nos seus relatos até porque marca vincadamente a paisagem da Cascalheira e também porque certamente, como na nossa meninice, ela seria usada como plataforma de mergulhos para o rio e José Augusto Vieira dificilmente resistiria a tal descrição. Também parece ficarmos convencidos de que nesta data a grande casa da fábrica de papel já não existiria porque do mesmo modo, a estar deitada ao abandono, seria cenário de passeio dos enamorados. Contudo, conforme o inventário já referido 40 anos ela estaria lá, e decorrem em 1886 as grandes obras do parque das termas onde foram gastas largas toneladas de pedra para emparedar as margens do rio Vizela. Faz algum sentido pensar que a pedra usada nesta obra tivesse sido a da grande casa da fábrica de papel? Julgamos que sim pois a grande casa já há muito que deixaria de ter utilidade e a venda da pedra poderia constituir fonte de rendimento para a família dos Moreira de Sá, mas isto são suposições.

Em Abril de 2011 foi notíciado pela Rádio Vizela que durante a demolição da antiga fábrica da Caravela terá sido colocado a nú vestígios da primeira fábrica de papel da Europa (?). A notícia está certamente envolta em equívocos, desde logo alguma confusão com o que designam primeira fábrica de papel da Europa, ora deveriam querer dizer, primeira fábrica do mundo a produzir papel com pasta de madeira, pois referem a sua existência em 1800. Depois relacionar o achado com esta fábrica terá sido precipitação pois todos os documentos a indicam na quinta da Cascalheira local bem definido cuja denominação chegou aos nossos dias e que se localiza a montante deste local a uma distância de cerca de 800m. A antiga fábrica da Caravela situava-se na margem esquerda do rio em lugar conhecido, pelo menos até final do século XIX, como Pisão. A Caravela terá sido construída naquele que foi o edifício primitivo da Sedas de Vizela, mas antes, nesse local funcionou a Augusto Inácio da Cunha Guimarães, indústria de cutelarias e pentes que usava como matéria prima hastes de gado bovino. Segundo os autores Francisco da Silva Costa e José Manuel Lopes Cordeiro, ambos investigadores da Universidade do Minho, em «PATRIMÓNIO HIDRÁULICO E ARQUEOLOGIA INDUSTRIAL: O CASO DO RIO AVE NO NOROESTE DE PORTUGAL», Augusto Inácio da Cunha Guimarães em 1918 requereu ampliação da sua fábrica reconstruindo o açude e rodas hidráulicas. Ainda segundo os autores esta obra marcou a paisagem industrial de Vizela. Julgamos que o açude imediatamente abaixo da ponte D. Luís seja o que serviu esta fábrica. Pensamos então que os vestígios encontrados na demolição possam ser desta antiga indústria e não da fábrica de papel.


Voltemos agora para as fábricas erigidas em Moreira de Cónegos. De novo Júlio César Ferreira nos dá conta dos respectivos locais nas suas reportagens fotográficas. Para a fábrica localizada em Ante-Vilar apresenta-nos um edifício em pedra em estado de quase ruína e para segunda fábrica as actuais instalações da Têxtil de Vizela. Sai fora dos propósitos destes apontamentos a investigação no terreno e não tendo conseguido outras informações não nos vamos deter na análise da sua localização.

(continua)

24/08/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (VIII)

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6 – As Ruínas da Fábrica da Cascalheira
6.1 - Guerra Peninsular

Mas haverá alguma consistência na versão que indica que a fábrica foi destruída pelo exército francês? Para responder a essa questão, na ausência de documentação que nos dê notícias da actividade francesa em Vizela no tempo da Guerra Peninsular vamos saber o que se passou na vizinha Guimarães à qual Vizela dependia administrativamente, curiosamente vamos estudar o tema recorrendo a um discurso do Abade de Tagilde, freguesia que hoje pertence ao concelho de Vizela, João Oliveira Guimarães à época presidente da Câmara de Guimarães. O documento pertence ao arquivo da Sociedade Martins Sarmento da qual todo o nosso país se deve orgulhar pelo valor que a mesma tem no estudo da História local do norte em especial Guimarães e Vizela.

João Oliveira Guimarães, nas comemorações do centenário da Guerra Peninsular, indica-nos que os franceses chegaram a Guimarães em 18 de Dezembro de 1807 e que só 48 dias depois é que a Câmara proclamou ser administrada pelos franceses, pelo que explica a resistência local aos invasores. A acção francesa nos primeiros tempos apenas fica marcada pelos elevados encargos para a Câmara que é obrigada a custear as despesas do exército invasor. Porém a população da villa e arredores vai ganhando fulgor no sentido de armar milícias para combater o exército francês. Assim em 18 de Junho de 1808 a população junta-se em assembleia popular com a Câmara e autoridades, aclamam o Príncipe Regente e proclamam a independência da pátria. Seguem depois para a Colegiada onde pedem bênção à Virgem da Oliveira. Guimarães torna-se o centro do movimento no Minho e é por isso de esperar que venha a ser alvo da fúria do exército francês.

As milícias vão-se preparando para os confrontos que se adivinhavam. Rodrigo Vieira Borges de Campos, abade resignatário de S. Paio de Vizela, foi um dos principais beneméritos da causa tendo ido para o Porto durante doze dias às suas custas para conseguir equipamento militar. É  justo fazer aqui referência ao contributo impulsionador do clero local tendo muitos párocos estado nas frentes de batalha

Guimarães não era caso isolada e um pouco por todo o país se levantaram milícias populares que bravamente enfrentaram o exército francês. Junot dera entretanto ordens a Loison que estava aquartelado em Almeida para se dirigir ao Norte e tomar a cidade do Porto. Loison atravessa o rio Douro e chega a Mesão Frio em 21 de Junho de 1808 com parte dos seus soldados feridos e outros mortos pelas emboscadas que encontraram pelo caminho. E Na serra do Marão aguardavam o general Loison as gentes de Guimarães e de outras terras comandados pelos vimaranenses Gaspar Teixeira e monsenhor Pedro Machado de Miranda. Loison teme e não arrisca, recua volta a passar o rio Douro e Lamego até que em Póvoa de Juvantes o seu exército fica debaixo de intenso fogo e decide voltar para Almeida.

Com estas jornadas deu-se o fim da primeira invasão francesa em terras do norte. Fica assim esclarecido que é pouco provável que a fábrica de papel possa ter sido destruída pelos franceses não terá sido na primeira invasão. Porém o norte ainda não ficou definitivamente livre dos franceses. Alguns meses depois dá-se a segunda invasão, esta iniciada na zona norte.

A 16 de Janeiro de 1809 o próprio Imperador Napoleão toma a Corunha. Aí ordena a Soult que deveria tomar a cidade do Porto a 1 de Fevereiro e 10 dias depois tomar a cidade de Lisboa. Soult parte da Corunha e com facilidade toma Ferrol e Vigo. Atingido a margem norte do rio Minho Soult encontrou sérias dificuldades em conseguir a travessia e só duas semanas depois tenta a travessia, a 16 de Fevereiro. Soult não consegue entrar em Portugal e decide contornar a fronteira norte, vai a Ourense e entra por Chaves. Em Ourense encontraram a ponte intacta e aí atravessaram o rio Minho.

Soult tomou a praça de Chaves a 12 de Março de 1809 e aí fez a sua base de operações em Portugal. Para chegar ao Porto Soult tomou o caminho pela serra da Cabreira, depois Salamonde e Braga e daí tomaria a estrada para o Porto. Pouco antes de Braga, em Carvalho d`Este, esperava os franceses um exército de 25.000 portugueses. A batalha foi facilmente resolvida a favor dos franceses, foi a 20 de Março. Aqui uma coluna de 4.000 homens sob o comando do general Lahoussaye separou-se do exército principal e rumou a Guimarães por Arosa. João Oliveira de Guimarães não faz relatos de destruição, mas apenas de pilhagens aos tesouros das igrejas.

Loison marchava de novo pelo Alto Douro a caminho de Braga para juntar os seus homens aos de Soult. O general Lahoussaye saiu de Guimarães ao encontro de Loison e foi em Amarante que ambos travaram uma prolongada e violenta batalha contra o exército português que contaria com cerca de 10.000 homens comandados pelo brigadeiro Silveira que havia sido forçado a sair de Chaves. Nesta batalha faleceu um filho de Francisco Joaquim Moreira de Sá, o dono da fábrica da Cascalheira.

Entretanto no Porto as coisas não estavam a correr de feição para Soult que havia sido surpreendido pela chegada das tropas britânicas. Assim Soult retira do Porto e planeia juntar-se a Loison . Soult sai do Porto em direcção a Amarante  e em Baltar decide acampar e passar a Noite. Estaria já meio de caminho entre o Porto e Amarante quando toma conhecimento de que Amarante estava já em mãos portuguesas e que Loison já se encontrava em Guimarães. Vê-se assim quase cercado, a Oeste estão os ingleses, a Este os portugueses, resta-lhe tomar o Norte como rumo em direcção a Guimarães. Soult desconhecia o caminho que de resto era difícil e pelo meio da serra. Soult dá instruções para deixar para trás tudo quanto não pudesse ser carregado às costas, inclusive os bens pilhados durante a campanha. Uma vez em Guimarães já reunido com Loison toma conhecimento de que Braga já estava sob a protecção do exército inglês e por isso já não podia ser rota de fuga. Entretanto o exército inglês também alcança Chaves e Soult é forçado a sair de Guimarães pelo lado Norte e depois virar pela serra do Gerês alcançando Espanha na zona de Montalegre.

Termina aqui a segunda invasão francesa e não há registos de que na terceira este região tenha sido interceptada pelas tropas de Napoleão. Ora, desta alongada dissertação sobre as movimentações francesas, ficamos convencidos de que os franceses terão atravessado Vizela aquando da retirada do Porto. Vizela continua hoje a ser porta de entrada do Vale do Ave para quem vem de terras    do Sousa, não obstante parece-nos pouco provável que a nossa fábrica tenha sido destruída nesta passagem. Consta dos relatos que Soult demorou apenas 1 dia de Baltar a Guimarães e que sendo a travessia difícil e debaixo de chuva carregaram consigo apenas o indispensável para a fuga, assim não teria havido tempo nem recursos para destruir por completo a fábrica. Por outro lado não é de todo impossível que Louison tenha passado por Vizela no trajecto de Amarante para Guimarães, embora nos pareça mais fácil não o fazer por aqui, bom mas não temos conhecimento suficiente dos caminhos antigos para especular. Vamos admitir que Louison passou em Vizela, terá tido oportunidade de destruir a fábrica de papel? Depois do fim da batalha de Amarante até reunião com as tropas de Soult em Guimarães e a fuga de ambos pelo Gerês decorreram cerca de 2 semanas. João Oliveira Guimarães no seu discurso diz que nesta última passagem por Guimarães os vimaranenses sofreram opressões e extorsões que deixa em silêncio. Não sobram dúvidas de que os franceses se portaram barbaramente neste período de fuga, duvidamos no entanto de que tenham tido tempo suficiente para destruir a fábrica por completo.


É bem claro que as invasões francesas ditaram o fim da fábrica de Francisco Joaquim Moreira de Sá com a fuga do seu promotor para o Brasil e em consequência o seu abandono. É também possível que as tropas francesas tenham mesmo estado nas instalações da fábrica e as tenham destruído, mas achamos pouco provável que a tenham deixado no estado de ruína total. Era comum na época os populares deitarem mão às pedras de edifícios abandonados para as reutilizar nas suas construções. É possível que aqui também assim tenha acontecido. Em todo o caso os franceses tinham razões de sobra para a querem destruída, desde logo pelo avanço tecnológico lá praticado, depois pelas suas ligações a António de Araújo de Azevedo e por ser dirigida por um inglês.

24/07/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (VII)

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6 – As Ruínas da Fábrica da Cascalheira
6.1 - Guerra Peninsular

É comum ler-se que a fábrica de papel da Cascalheira foi destruída em 1808 pelas invasões francesas, porém é quase inexistente a documentação disponível na grande rede que é a Internet. Recorremos de novo a Rui Moreira de Sá que nos dá uma perspectiva diferente da sabedoria comum. Com efeito em a «Prioridade do Fabrico de Papel na Quinta de Sá”, são citadas duas fontes que apontam para que a destruição da fábrica tenha sido levada a cabo por plebeus que acusavam o seu promotor de “afrancesado”. 

No terceiro capítulo destes apontamentos fizemos referência a que António de Araújo e Azevedo pode ter sido determinante na construção da fábrica podendo também o ter sido, ainda que involuntariamente, para a sua destruição. O futuro Conde da Barca tornara-se Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Guerra e figura central do conflito quadrangular, Portugal, Inglaterra, França e Espanha que os levou à Guerra Peninsular, ou de forma mais comum à invasões francesas. Recapitulando o que já foi dito antes, António de Araújo e Azevedo recebeu intimação de Napolião Bonapart para fechar os portos aos navios ingleses e prender todos os súbditos britânicos em território nacional e demitisse o ministro inglês em Lisboa. Em Conselho de Estado António de Araújo e Azevedo fez vencer a sua posição e Portugal acatou o pedido de fechar os portos mas não as outras condições.

Entretanto os franceses entendem que Portugal não acatou as condições do chamado Bloqueio Continental e decidem invadir Portugal. Em 18 de Outubro de 1807 as tropas francesas comandadas pelo general Junot entram em Espanha em direcção a Lisboa atingindo a fronteira portuguesa em 20 de Novembro. Durante o trânsito das tropas de Junot em território espanhol, Portugal celebra com Inglaterra um acordo secreto para transferência da Monarquia portuguesa para o Brasil pelo qual a armada inglesa daria protecção aos navios portugueses. António de Araújo e Azevedo terá sido um dos principais conselheiros reais a apoiar este plano e em 29 de Novembro de 1807 parte juntamente com a família Real para o Brasil. Na mesma viagem também embarcou o empreendedor da fábrica de papel, Francisco Joaquim Moreira de Sá.

Conforme também já sabemos Thomaz Bishop, por ser inglês, não estava em segurança em Portugal e por isso refugiou-se na América do Norte. Nestas circunstâncias e sem os timoneiros a fábrica não tem condições para laborar e de certa forma terá ficado ao abandono.

Voltando a Rui Moreira de Sá, segundo o qual, em dizer de Pereira Caldas o povo terá apelidado Francisco Joaquim Moreira de Sá de jacobino feroz e arrasou-lhe a fábrica até aos alicerces. O autor relaciona essa posição com a do brigadeiro Carlos Azeredo em «As Populações a Norte do Douro e os Franceses em 1808 e 1809» na qual relata muitos casos de perseguição a suspeitos de “afrancesados”. 


Em nosso entender é bem possível que assim tenha acontecido, a mais que era do conhecimento que Francisco Joaquim Moreira de Sá tomou o terceiro grau maçonaria em 1790 tendo no entanto renunciado voluntariamente perante o Santo Ofício em 1792. De qualquer modo, mesmo que assim não fosse, é compreensível que o povo se tenha sentido abandonado pela fuga da Coroa para o Brasil e visse num ataque à fábrica uma forma de vingança. Em 1809 Francisco Joaquim Moreira de Sá através da Real Imprensa da Universidade de Coimbra publicou um ode em jeito de apelo à luta contra os franceses: «Proclamação aos Portugueses»
«Enquanto o monstro vela, os Lusitanos
Dormem acaso? Acaso descansados
No regaço da paz, ao ócio entregues!
Que é isto,  bravos Lusos! Porventura
Julgais tudo acabado? Quando apenas
Mal os ombros meteis à grande empresa!
Às armas, Lusitanos correi prontos,
Dai aos Manes d’Herois heróicos feitos.»


Convenhamos que não terá caído bem ao povo estes escritos sabendo do seu autor a salvo no Brasil (isso dizemos nós).

(continua)

26/03/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (VI)



5 – A Fábrica de Papel das Caldas

Acha-se no relatório no relatório da Exposição Industrial de Guimarães de 1884, por Alberto Sampaio, que:
 «A fábrica dos Snrs. Ribeiro e C.ª está situada no lugar de Ante-Vilar, freguesia de Moreira de Cónegos, na margem direita do Rio Vizela. Foi fundada nos anos 1813-1814. Produz papel de almaço e de escrever, branco liso, anilado pautado e de embrulho branco e pardo.
Aproveita como força motora a água do rio, que move 3 rodas e estas 3 cilindros, que lavam e trituram o trapo até o reduzir a pasta. O resto do serviço é todo manual.
O edifício foi construído e adaptado para o fabrico pelo sistema antigo. Em 1856 ampliou-se com um acréscimo e fizeram-se alguns aperfeiçoamentos. Além do rés-do-chão tem dous andares e junto duas casas onde estão duas pequenas oficinas de ferreiro e carpinteiro».
A propósito desta passagem em 1953 na Revista de Guimarães, Alberto Vieira Braga em «Curiosidades de Guimarães» questiona quantas fábricas terão existido no rio Vizela. Segundo o autor:
«A primeira fábrica, sabemos nós que foi montada por António Álvares Ribeiro, assistente da rua de S. Miguel da cidade do Porto, para o que obteve Alvará régio em 24 de Novembro de 1789, confirmado por Provisão de 7 de Janeiro de 1799.»
Alberto Vieira Braga diz ainda que a 10 de Julho de 1798 foi lavrada uma escritura pelo tabelião de Guimarães, João Mendes Ribeiro, em que António Álvares Ribeiro admite como sócio da fábrica Francisco José Ribeiro e Castro morador no lugar do Aidro, freguesia de S. Miguel das Caldas com a quarta parte da sociedade. A escritura explica que o negócio é concretizado pelo muito trabalho que o novo sócio tem tido com a erecção da fábrica cuja construção se tem principiado nas margens do rio Vizela.
De acordo com os relatórios das exposições industriais, em 1897 o expositor é Álvares Ribeiro com uma larga resenha histórica dizendo que foi construída por Alvará régio de 24 de Novembro de 1789. Em Braga no ano de 1863 e no Porto em 1865 a empresa de papel expositora é a Ribeiro e C.ª. Em 1923 aparece o registo da fábrica de Papel de Vizela localizada em Moreira de Cónegos.
Alberto Vieira Braga no seu artigo «Curiosidades de Guimarães» publicado em 1953 conclui assim que existiram três fábricas em Vizela, a primeira em fundada em 1789 de Álvares Ribeiro e que laborava com trapos, a segunda de 1804 e que pertenceu a Francisco Joaquim Moreira de Sá que laborava com massa de madeira e já estudada em capítulos anteriores, e uma terceira, fundada em 1813-1814 que laborava com trapos e palha e se manteve até 1930 embora em decadência e tendo passado por várias mãos.
A autora vizelense Maria José Pacheco no texto «Álvares Ribeiro e o Fabrico de Papel», editado no livro da mesma autora «Das Margens do Vizela», escreveu que Álvares Ribeiro era filho de António Álvares Ribeiro de Guimarães, este natural de Caldas de Vizela e que se estabeleceu no Porto como impressor e livreiro. António Álvares Ribeiro de Guimarães nasceu em 1749, casou em 1758 e deu início a uma importante família de livreiros da cidade do Porto que em muito contribuiram para o presígio da actividade. Em 1774 data do falecimento de António Álvares Ribeiro Guimarães, o filho Ántónio Álvares Ribeiro que nasceu em 1760 estava praticamente em condições de assumir a oficina do pai que se situaria na rua de S. Miguel. Terá sido já Ántónio Álvares Ribeiro, que dotado de espírito empreededor fez com que a oficina ganha-se renome, e abriu uma loja dedicada exclusivamente à venda de livros na rua das Flores.

Com apenas 24 anos e dez após a morte de seu pai, António Álvares Ribeiro, fundou aquela que terá sido a primeira fábrica de papel do rio Vizela. Em «O papel como elemento de identificação» da Biblioteca Nacional e publicado em 1926 é dito que Ántónio Álvares Ribeiro produz papel com uma marca de água própria e que em 1814 possui um outro engenho perto da propriedade de Manuel de Sousa Lobo. No inquérito paroquial de 1842 à paróquia de S. Paio de Moreira de Cónegos, o pároco Francisco Teixeira da Cunha identifica na freguesia duas fábricas de papel.

No «Livro dos proprietários das Tipografias e Litografias 1837-1876» no Arquivo do Gabinete da Cidade é dito que após a morte de António Álvares Ribeiro em 1812, a oficina de tipografia passou a designar-se por Viúva Álvares Ribeiro e Filhos. A mesma informação é dada por Maria José Pacheco na publicação já acima referenciada. A ser assim, em 1813-1814 a firma Ribeiro e C.ª seria já de um seu herdeiro. É pois assim provavel que esta denominação fosse criada por transformação da sociedade após a morte de Ántonio Álvares Ribeiro sendo porém a mesma fábrica. Contudo não é descabido que a família Álvares Ribeiro tivesse mais do que um engenho de papel, não sendo certo porém que fossem ambas no rio Vizela pois no documento «O papel como elemento de identificação» não se consegue perceber a localização. Para a definir teriamos de descobrir o local da propriedade de Manuel de Sousa Lobo, que presumimos tratar-se de um importante mercador, à época proprietário do navio mercante Harmonia que foi aprisionado pelo Almirante Cockrane quando transportava tropas para o Brasil.
Uma outra fábrica que ficava próximo de Vizela foi fundada por provisão de 9 de Agosto de 1800, propriedade de Francisco José Ribeiro e C.ª, de S. Miguel das Caldas, a qual produzia papel de almaço de escrever, branco, liso, etc., conhecido como papel das Caldas de Vizela, assim se lê no pouco que conseguimos obter de «Anais das Bibliotecas e Arquivos de Portugal» de 1924 cujos excertos estão disponiveis em Google Books. Esta designação comercial está próxima da registada no relatório da Exposição Industrial de Guimarães de 1884 por Alberto Sampaio e da qual já demos conta. Também pela escritura de 10 de Julho de 1798 sabemos que António Álvares Ribeiro admitiu como sócio Francisco José Ribeiro e Castro de S. Miguel das Caldas. São dúvidas que se levantam pois como o mestre da fábrica de António Álvares Ribeiro que ganha a quarta parte da sociedade e dois anos depois aparece como fundador de outra fábrica com uma designação comercial que em tudo faz lembrar a original? Terá o mestre e sócio da primitiva fábrica seguido um percurso independente poucos anos depois? É muito provavel que sim e será esta a explicação para as diversas designações dos relatórios das exposições que Alberto Vieira Braga estudou em «Curiosidades de Guimarães». A ser assim também poderá explicar-se o registo de duas fábricas de papel em Moreira de Cónegos no inquérito paroquial de 1842.
Assim, ainda que com algumas fragilidades concluímos que:
a)      António Álvares Ribeiro fundou a primeira fábrica de papel do rio Vizela em Moreira de Cónegos em 1789, conforme Alvará régio de 24 de Novembro desse ano.
b)      Em 1798, conforme escritura de 10 de Julho, António Álvares Ribeiro admite o seu mestre Francisco José Ribeiro e Castro como seu sócio na fábrica a quarta parte da sociedade.
c)      Em 9 de Agosto de 1800 foi fundada uma nova fábrica designada Franciso José Ribeiro e C.ª e que poderá ter sido do mestre e sócio da primeira fábrica.
d)     A 28 de Abril de 1804 foi fundada a fábrica de papel da Cascalheira por Francisco Joaquim Moreira de Sá e já estudada em capítulo anterior.
e)      Em 1812 morre António Álvares Ribeiro e no ano seguinte, em 1813, a firma terá mudado de designação para Ribeiro e C.ª.
Num texto publicado no fórum do site de genealogia Geniall por Manuel Maria Magalhães, que se diz descendente da família de Álvares Ribeiro, é dito que os Ribeiro se dedicaram à produção de papel em Vizela, negócio que mantiveram durante largas de zenas de anos, tendo entretanto a fábrica sido desactivada e a sua queda de água vendida em 1940 pela sua tia-avô Madre Maria Máxima Cabral Álvares Ribeiro, da Congregação de Santa Doroteia, para grande desgosto da família Santos da Cunha, seus clientes e que muito apreciavam o papel próprio para pirótecnia. A propósito a família Santos da Cunha é originária de Braga e a par com outros ramos de negócio ainda hoje se dedica aos explosivos e quimícos para pirotécnia, tendo a empresa sido fundada em 1834. Esta informação acaba por estar muito próxima da de Alberto Vieira Braga que diz que a fábrica foi desactivada em 1930 já em decadência. Ora assim vemos que a última herdeira da fábrica terá sido uma freira religiosa e que a mesma se manteve durante quase século e meio como pertença da família Álvares Ribeiro.
Resta esclarecer um pormenor: a quem pertencia a marca Papel das Caldas? Maria José Pacheco diz que António Álvares Ribeiro produzia um papel conhecido como Papel das Caldas e que o vendia para o Brasil. Já conforme transcrito aqui, em «Anais das Bibliotecas e Arquivos de Portugal», seria a firma Francisco José Ribeiro e C.ª que produzia o chamado papel das Caldas de Vizela. Fica esta questão por esclarecer, pois para ela não encontramos nada escrito que nos aponte caminho, ficamos porém inclinados para que a afirmação de Maria José Pacheco seja a mais correcta.
(continua)