24/08/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (VIII)

 (anterior)

6 – As Ruínas da Fábrica da Cascalheira
6.1 - Guerra Peninsular

Mas haverá alguma consistência na versão que indica que a fábrica foi destruída pelo exército francês? Para responder a essa questão, na ausência de documentação que nos dê notícias da actividade francesa em Vizela no tempo da Guerra Peninsular vamos saber o que se passou na vizinha Guimarães à qual Vizela dependia administrativamente, curiosamente vamos estudar o tema recorrendo a um discurso do Abade de Tagilde, freguesia que hoje pertence ao concelho de Vizela, João Oliveira Guimarães à época presidente da Câmara de Guimarães. O documento pertence ao arquivo da Sociedade Martins Sarmento da qual todo o nosso país se deve orgulhar pelo valor que a mesma tem no estudo da História local do norte em especial Guimarães e Vizela.

João Oliveira Guimarães, nas comemorações do centenário da Guerra Peninsular, indica-nos que os franceses chegaram a Guimarães em 18 de Dezembro de 1807 e que só 48 dias depois é que a Câmara proclamou ser administrada pelos franceses, pelo que explica a resistência local aos invasores. A acção francesa nos primeiros tempos apenas fica marcada pelos elevados encargos para a Câmara que é obrigada a custear as despesas do exército invasor. Porém a população da villa e arredores vai ganhando fulgor no sentido de armar milícias para combater o exército francês. Assim em 18 de Junho de 1808 a população junta-se em assembleia popular com a Câmara e autoridades, aclamam o Príncipe Regente e proclamam a independência da pátria. Seguem depois para a Colegiada onde pedem bênção à Virgem da Oliveira. Guimarães torna-se o centro do movimento no Minho e é por isso de esperar que venha a ser alvo da fúria do exército francês.

As milícias vão-se preparando para os confrontos que se adivinhavam. Rodrigo Vieira Borges de Campos, abade resignatário de S. Paio de Vizela, foi um dos principais beneméritos da causa tendo ido para o Porto durante doze dias às suas custas para conseguir equipamento militar. É  justo fazer aqui referência ao contributo impulsionador do clero local tendo muitos párocos estado nas frentes de batalha

Guimarães não era caso isolada e um pouco por todo o país se levantaram milícias populares que bravamente enfrentaram o exército francês. Junot dera entretanto ordens a Loison que estava aquartelado em Almeida para se dirigir ao Norte e tomar a cidade do Porto. Loison atravessa o rio Douro e chega a Mesão Frio em 21 de Junho de 1808 com parte dos seus soldados feridos e outros mortos pelas emboscadas que encontraram pelo caminho. E Na serra do Marão aguardavam o general Loison as gentes de Guimarães e de outras terras comandados pelos vimaranenses Gaspar Teixeira e monsenhor Pedro Machado de Miranda. Loison teme e não arrisca, recua volta a passar o rio Douro e Lamego até que em Póvoa de Juvantes o seu exército fica debaixo de intenso fogo e decide voltar para Almeida.

Com estas jornadas deu-se o fim da primeira invasão francesa em terras do norte. Fica assim esclarecido que é pouco provável que a fábrica de papel possa ter sido destruída pelos franceses não terá sido na primeira invasão. Porém o norte ainda não ficou definitivamente livre dos franceses. Alguns meses depois dá-se a segunda invasão, esta iniciada na zona norte.

A 16 de Janeiro de 1809 o próprio Imperador Napoleão toma a Corunha. Aí ordena a Soult que deveria tomar a cidade do Porto a 1 de Fevereiro e 10 dias depois tomar a cidade de Lisboa. Soult parte da Corunha e com facilidade toma Ferrol e Vigo. Atingido a margem norte do rio Minho Soult encontrou sérias dificuldades em conseguir a travessia e só duas semanas depois tenta a travessia, a 16 de Fevereiro. Soult não consegue entrar em Portugal e decide contornar a fronteira norte, vai a Ourense e entra por Chaves. Em Ourense encontraram a ponte intacta e aí atravessaram o rio Minho.

Soult tomou a praça de Chaves a 12 de Março de 1809 e aí fez a sua base de operações em Portugal. Para chegar ao Porto Soult tomou o caminho pela serra da Cabreira, depois Salamonde e Braga e daí tomaria a estrada para o Porto. Pouco antes de Braga, em Carvalho d`Este, esperava os franceses um exército de 25.000 portugueses. A batalha foi facilmente resolvida a favor dos franceses, foi a 20 de Março. Aqui uma coluna de 4.000 homens sob o comando do general Lahoussaye separou-se do exército principal e rumou a Guimarães por Arosa. João Oliveira de Guimarães não faz relatos de destruição, mas apenas de pilhagens aos tesouros das igrejas.

Loison marchava de novo pelo Alto Douro a caminho de Braga para juntar os seus homens aos de Soult. O general Lahoussaye saiu de Guimarães ao encontro de Loison e foi em Amarante que ambos travaram uma prolongada e violenta batalha contra o exército português que contaria com cerca de 10.000 homens comandados pelo brigadeiro Silveira que havia sido forçado a sair de Chaves. Nesta batalha faleceu um filho de Francisco Joaquim Moreira de Sá, o dono da fábrica da Cascalheira.

Entretanto no Porto as coisas não estavam a correr de feição para Soult que havia sido surpreendido pela chegada das tropas britânicas. Assim Soult retira do Porto e planeia juntar-se a Loison . Soult sai do Porto em direcção a Amarante  e em Baltar decide acampar e passar a Noite. Estaria já meio de caminho entre o Porto e Amarante quando toma conhecimento de que Amarante estava já em mãos portuguesas e que Loison já se encontrava em Guimarães. Vê-se assim quase cercado, a Oeste estão os ingleses, a Este os portugueses, resta-lhe tomar o Norte como rumo em direcção a Guimarães. Soult desconhecia o caminho que de resto era difícil e pelo meio da serra. Soult dá instruções para deixar para trás tudo quanto não pudesse ser carregado às costas, inclusive os bens pilhados durante a campanha. Uma vez em Guimarães já reunido com Loison toma conhecimento de que Braga já estava sob a protecção do exército inglês e por isso já não podia ser rota de fuga. Entretanto o exército inglês também alcança Chaves e Soult é forçado a sair de Guimarães pelo lado Norte e depois virar pela serra do Gerês alcançando Espanha na zona de Montalegre.

Termina aqui a segunda invasão francesa e não há registos de que na terceira este região tenha sido interceptada pelas tropas de Napoleão. Ora, desta alongada dissertação sobre as movimentações francesas, ficamos convencidos de que os franceses terão atravessado Vizela aquando da retirada do Porto. Vizela continua hoje a ser porta de entrada do Vale do Ave para quem vem de terras    do Sousa, não obstante parece-nos pouco provável que a nossa fábrica tenha sido destruída nesta passagem. Consta dos relatos que Soult demorou apenas 1 dia de Baltar a Guimarães e que sendo a travessia difícil e debaixo de chuva carregaram consigo apenas o indispensável para a fuga, assim não teria havido tempo nem recursos para destruir por completo a fábrica. Por outro lado não é de todo impossível que Louison tenha passado por Vizela no trajecto de Amarante para Guimarães, embora nos pareça mais fácil não o fazer por aqui, bom mas não temos conhecimento suficiente dos caminhos antigos para especular. Vamos admitir que Louison passou em Vizela, terá tido oportunidade de destruir a fábrica de papel? Depois do fim da batalha de Amarante até reunião com as tropas de Soult em Guimarães e a fuga de ambos pelo Gerês decorreram cerca de 2 semanas. João Oliveira Guimarães no seu discurso diz que nesta última passagem por Guimarães os vimaranenses sofreram opressões e extorsões que deixa em silêncio. Não sobram dúvidas de que os franceses se portaram barbaramente neste período de fuga, duvidamos no entanto de que tenham tido tempo suficiente para destruir a fábrica por completo.


É bem claro que as invasões francesas ditaram o fim da fábrica de Francisco Joaquim Moreira de Sá com a fuga do seu promotor para o Brasil e em consequência o seu abandono. É também possível que as tropas francesas tenham mesmo estado nas instalações da fábrica e as tenham destruído, mas achamos pouco provável que a tenham deixado no estado de ruína total. Era comum na época os populares deitarem mão às pedras de edifícios abandonados para as reutilizar nas suas construções. É possível que aqui também assim tenha acontecido. Em todo o caso os franceses tinham razões de sobra para a querem destruída, desde logo pelo avanço tecnológico lá praticado, depois pelas suas ligações a António de Araújo de Azevedo e por ser dirigida por um inglês.

24/07/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (VII)

(anterior)

6 – As Ruínas da Fábrica da Cascalheira
6.1 - Guerra Peninsular

É comum ler-se que a fábrica de papel da Cascalheira foi destruída em 1808 pelas invasões francesas, porém é quase inexistente a documentação disponível na grande rede que é a Internet. Recorremos de novo a Rui Moreira de Sá que nos dá uma perspectiva diferente da sabedoria comum. Com efeito em a «Prioridade do Fabrico de Papel na Quinta de Sá”, são citadas duas fontes que apontam para que a destruição da fábrica tenha sido levada a cabo por plebeus que acusavam o seu promotor de “afrancesado”. 

No terceiro capítulo destes apontamentos fizemos referência a que António de Araújo e Azevedo pode ter sido determinante na construção da fábrica podendo também o ter sido, ainda que involuntariamente, para a sua destruição. O futuro Conde da Barca tornara-se Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Guerra e figura central do conflito quadrangular, Portugal, Inglaterra, França e Espanha que os levou à Guerra Peninsular, ou de forma mais comum à invasões francesas. Recapitulando o que já foi dito antes, António de Araújo e Azevedo recebeu intimação de Napolião Bonapart para fechar os portos aos navios ingleses e prender todos os súbditos britânicos em território nacional e demitisse o ministro inglês em Lisboa. Em Conselho de Estado António de Araújo e Azevedo fez vencer a sua posição e Portugal acatou o pedido de fechar os portos mas não as outras condições.

Entretanto os franceses entendem que Portugal não acatou as condições do chamado Bloqueio Continental e decidem invadir Portugal. Em 18 de Outubro de 1807 as tropas francesas comandadas pelo general Junot entram em Espanha em direcção a Lisboa atingindo a fronteira portuguesa em 20 de Novembro. Durante o trânsito das tropas de Junot em território espanhol, Portugal celebra com Inglaterra um acordo secreto para transferência da Monarquia portuguesa para o Brasil pelo qual a armada inglesa daria protecção aos navios portugueses. António de Araújo e Azevedo terá sido um dos principais conselheiros reais a apoiar este plano e em 29 de Novembro de 1807 parte juntamente com a família Real para o Brasil. Na mesma viagem também embarcou o empreendedor da fábrica de papel, Francisco Joaquim Moreira de Sá.

Conforme também já sabemos Thomaz Bishop, por ser inglês, não estava em segurança em Portugal e por isso refugiou-se na América do Norte. Nestas circunstâncias e sem os timoneiros a fábrica não tem condições para laborar e de certa forma terá ficado ao abandono.

Voltando a Rui Moreira de Sá, segundo o qual, em dizer de Pereira Caldas o povo terá apelidado Francisco Joaquim Moreira de Sá de jacobino feroz e arrasou-lhe a fábrica até aos alicerces. O autor relaciona essa posição com a do brigadeiro Carlos Azeredo em «As Populações a Norte do Douro e os Franceses em 1808 e 1809» na qual relata muitos casos de perseguição a suspeitos de “afrancesados”. 


Em nosso entender é bem possível que assim tenha acontecido, a mais que era do conhecimento que Francisco Joaquim Moreira de Sá tomou o terceiro grau maçonaria em 1790 tendo no entanto renunciado voluntariamente perante o Santo Ofício em 1792. De qualquer modo, mesmo que assim não fosse, é compreensível que o povo se tenha sentido abandonado pela fuga da Coroa para o Brasil e visse num ataque à fábrica uma forma de vingança. Em 1809 Francisco Joaquim Moreira de Sá através da Real Imprensa da Universidade de Coimbra publicou um ode em jeito de apelo à luta contra os franceses: «Proclamação aos Portugueses»
«Enquanto o monstro vela, os Lusitanos
Dormem acaso? Acaso descansados
No regaço da paz, ao ócio entregues!
Que é isto,  bravos Lusos! Porventura
Julgais tudo acabado? Quando apenas
Mal os ombros meteis à grande empresa!
Às armas, Lusitanos correi prontos,
Dai aos Manes d’Herois heróicos feitos.»


Convenhamos que não terá caído bem ao povo estes escritos sabendo do seu autor a salvo no Brasil (isso dizemos nós).

(continua)

26/03/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (VI)



5 – A Fábrica de Papel das Caldas

Acha-se no relatório no relatório da Exposição Industrial de Guimarães de 1884, por Alberto Sampaio, que:
 «A fábrica dos Snrs. Ribeiro e C.ª está situada no lugar de Ante-Vilar, freguesia de Moreira de Cónegos, na margem direita do Rio Vizela. Foi fundada nos anos 1813-1814. Produz papel de almaço e de escrever, branco liso, anilado pautado e de embrulho branco e pardo.
Aproveita como força motora a água do rio, que move 3 rodas e estas 3 cilindros, que lavam e trituram o trapo até o reduzir a pasta. O resto do serviço é todo manual.
O edifício foi construído e adaptado para o fabrico pelo sistema antigo. Em 1856 ampliou-se com um acréscimo e fizeram-se alguns aperfeiçoamentos. Além do rés-do-chão tem dous andares e junto duas casas onde estão duas pequenas oficinas de ferreiro e carpinteiro».
A propósito desta passagem em 1953 na Revista de Guimarães, Alberto Vieira Braga em «Curiosidades de Guimarães» questiona quantas fábricas terão existido no rio Vizela. Segundo o autor:
«A primeira fábrica, sabemos nós que foi montada por António Álvares Ribeiro, assistente da rua de S. Miguel da cidade do Porto, para o que obteve Alvará régio em 24 de Novembro de 1789, confirmado por Provisão de 7 de Janeiro de 1799.»
Alberto Vieira Braga diz ainda que a 10 de Julho de 1798 foi lavrada uma escritura pelo tabelião de Guimarães, João Mendes Ribeiro, em que António Álvares Ribeiro admite como sócio da fábrica Francisco José Ribeiro e Castro morador no lugar do Aidro, freguesia de S. Miguel das Caldas com a quarta parte da sociedade. A escritura explica que o negócio é concretizado pelo muito trabalho que o novo sócio tem tido com a erecção da fábrica cuja construção se tem principiado nas margens do rio Vizela.
De acordo com os relatórios das exposições industriais, em 1897 o expositor é Álvares Ribeiro com uma larga resenha histórica dizendo que foi construída por Alvará régio de 24 de Novembro de 1789. Em Braga no ano de 1863 e no Porto em 1865 a empresa de papel expositora é a Ribeiro e C.ª. Em 1923 aparece o registo da fábrica de Papel de Vizela localizada em Moreira de Cónegos.
Alberto Vieira Braga no seu artigo «Curiosidades de Guimarães» publicado em 1953 conclui assim que existiram três fábricas em Vizela, a primeira em fundada em 1789 de Álvares Ribeiro e que laborava com trapos, a segunda de 1804 e que pertenceu a Francisco Joaquim Moreira de Sá que laborava com massa de madeira e já estudada em capítulos anteriores, e uma terceira, fundada em 1813-1814 que laborava com trapos e palha e se manteve até 1930 embora em decadência e tendo passado por várias mãos.
A autora vizelense Maria José Pacheco no texto «Álvares Ribeiro e o Fabrico de Papel», editado no livro da mesma autora «Das Margens do Vizela», escreveu que Álvares Ribeiro era filho de António Álvares Ribeiro de Guimarães, este natural de Caldas de Vizela e que se estabeleceu no Porto como impressor e livreiro. António Álvares Ribeiro de Guimarães nasceu em 1749, casou em 1758 e deu início a uma importante família de livreiros da cidade do Porto que em muito contribuiram para o presígio da actividade. Em 1774 data do falecimento de António Álvares Ribeiro Guimarães, o filho Ántónio Álvares Ribeiro que nasceu em 1760 estava praticamente em condições de assumir a oficina do pai que se situaria na rua de S. Miguel. Terá sido já Ántónio Álvares Ribeiro, que dotado de espírito empreededor fez com que a oficina ganha-se renome, e abriu uma loja dedicada exclusivamente à venda de livros na rua das Flores.

Com apenas 24 anos e dez após a morte de seu pai, António Álvares Ribeiro, fundou aquela que terá sido a primeira fábrica de papel do rio Vizela. Em «O papel como elemento de identificação» da Biblioteca Nacional e publicado em 1926 é dito que Ántónio Álvares Ribeiro produz papel com uma marca de água própria e que em 1814 possui um outro engenho perto da propriedade de Manuel de Sousa Lobo. No inquérito paroquial de 1842 à paróquia de S. Paio de Moreira de Cónegos, o pároco Francisco Teixeira da Cunha identifica na freguesia duas fábricas de papel.

No «Livro dos proprietários das Tipografias e Litografias 1837-1876» no Arquivo do Gabinete da Cidade é dito que após a morte de António Álvares Ribeiro em 1812, a oficina de tipografia passou a designar-se por Viúva Álvares Ribeiro e Filhos. A mesma informação é dada por Maria José Pacheco na publicação já acima referenciada. A ser assim, em 1813-1814 a firma Ribeiro e C.ª seria já de um seu herdeiro. É pois assim provavel que esta denominação fosse criada por transformação da sociedade após a morte de Ántonio Álvares Ribeiro sendo porém a mesma fábrica. Contudo não é descabido que a família Álvares Ribeiro tivesse mais do que um engenho de papel, não sendo certo porém que fossem ambas no rio Vizela pois no documento «O papel como elemento de identificação» não se consegue perceber a localização. Para a definir teriamos de descobrir o local da propriedade de Manuel de Sousa Lobo, que presumimos tratar-se de um importante mercador, à época proprietário do navio mercante Harmonia que foi aprisionado pelo Almirante Cockrane quando transportava tropas para o Brasil.
Uma outra fábrica que ficava próximo de Vizela foi fundada por provisão de 9 de Agosto de 1800, propriedade de Francisco José Ribeiro e C.ª, de S. Miguel das Caldas, a qual produzia papel de almaço de escrever, branco, liso, etc., conhecido como papel das Caldas de Vizela, assim se lê no pouco que conseguimos obter de «Anais das Bibliotecas e Arquivos de Portugal» de 1924 cujos excertos estão disponiveis em Google Books. Esta designação comercial está próxima da registada no relatório da Exposição Industrial de Guimarães de 1884 por Alberto Sampaio e da qual já demos conta. Também pela escritura de 10 de Julho de 1798 sabemos que António Álvares Ribeiro admitiu como sócio Francisco José Ribeiro e Castro de S. Miguel das Caldas. São dúvidas que se levantam pois como o mestre da fábrica de António Álvares Ribeiro que ganha a quarta parte da sociedade e dois anos depois aparece como fundador de outra fábrica com uma designação comercial que em tudo faz lembrar a original? Terá o mestre e sócio da primitiva fábrica seguido um percurso independente poucos anos depois? É muito provavel que sim e será esta a explicação para as diversas designações dos relatórios das exposições que Alberto Vieira Braga estudou em «Curiosidades de Guimarães». A ser assim também poderá explicar-se o registo de duas fábricas de papel em Moreira de Cónegos no inquérito paroquial de 1842.
Assim, ainda que com algumas fragilidades concluímos que:
a)      António Álvares Ribeiro fundou a primeira fábrica de papel do rio Vizela em Moreira de Cónegos em 1789, conforme Alvará régio de 24 de Novembro desse ano.
b)      Em 1798, conforme escritura de 10 de Julho, António Álvares Ribeiro admite o seu mestre Francisco José Ribeiro e Castro como seu sócio na fábrica a quarta parte da sociedade.
c)      Em 9 de Agosto de 1800 foi fundada uma nova fábrica designada Franciso José Ribeiro e C.ª e que poderá ter sido do mestre e sócio da primeira fábrica.
d)     A 28 de Abril de 1804 foi fundada a fábrica de papel da Cascalheira por Francisco Joaquim Moreira de Sá e já estudada em capítulo anterior.
e)      Em 1812 morre António Álvares Ribeiro e no ano seguinte, em 1813, a firma terá mudado de designação para Ribeiro e C.ª.
Num texto publicado no fórum do site de genealogia Geniall por Manuel Maria Magalhães, que se diz descendente da família de Álvares Ribeiro, é dito que os Ribeiro se dedicaram à produção de papel em Vizela, negócio que mantiveram durante largas de zenas de anos, tendo entretanto a fábrica sido desactivada e a sua queda de água vendida em 1940 pela sua tia-avô Madre Maria Máxima Cabral Álvares Ribeiro, da Congregação de Santa Doroteia, para grande desgosto da família Santos da Cunha, seus clientes e que muito apreciavam o papel próprio para pirótecnia. A propósito a família Santos da Cunha é originária de Braga e a par com outros ramos de negócio ainda hoje se dedica aos explosivos e quimícos para pirotécnia, tendo a empresa sido fundada em 1834. Esta informação acaba por estar muito próxima da de Alberto Vieira Braga que diz que a fábrica foi desactivada em 1930 já em decadência. Ora assim vemos que a última herdeira da fábrica terá sido uma freira religiosa e que a mesma se manteve durante quase século e meio como pertença da família Álvares Ribeiro.
Resta esclarecer um pormenor: a quem pertencia a marca Papel das Caldas? Maria José Pacheco diz que António Álvares Ribeiro produzia um papel conhecido como Papel das Caldas e que o vendia para o Brasil. Já conforme transcrito aqui, em «Anais das Bibliotecas e Arquivos de Portugal», seria a firma Francisco José Ribeiro e C.ª que produzia o chamado papel das Caldas de Vizela. Fica esta questão por esclarecer, pois para ela não encontramos nada escrito que nos aponte caminho, ficamos porém inclinados para que a afirmação de Maria José Pacheco seja a mais correcta.
(continua)

17/02/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (V)



4 - Paternidade da Invenção do Fabrico de Papel com Pasta de Madeira

O artigo de Rui Moreria de Sá e Guerra inicia com a discussão da paternidade da invenção do fábrico de papel com pasta de madeira mas, como o próprio diz, tem a ansia de defender a tese que atribui a invenção a Francisco Joaquim Moreira de Sá, não deixando no entanto de enumerar teses que apontam outros nomes.
Sabe-se que devido à escassez de trapo desde pelo 1765 começaram a fazer-se experiências para produção de papel sem trapo com matéria prima vegetal. O jornalista das Caldas da Rainha, Raúl Proença, escreveu em «Breve Notícia sobre a Indústria de Papel» que aparece publicado em «Anais das Bibliotecas e Arquivos» que a paternidade do dito invento se deve a Mathias Koop. Raúl Proença apelida os defensores da tese de Francisco Joaquim Moreira de Sá de “patrioteiros nunalvarescos”.
Oficialmente a pasta de madeira mecânica, ou seja obtida por métodos mecânicos, maceração, foi inventada por um alemão Friedrich Gottlob Keller em 1840, porém em 1801, um inglês, Mathias Koop terá escrito um livro para o qual terá utilizado palha e restos de papel velho para o produzir. Não fazendo referência a nenhum documento em particular que sustente estas informações isto se pode ler nas mais diversas fontes disponíveis na Internet.
Em a “Rota do Papel do Vale do Ceira e da Serra da Lousã – A Fábrica de Papel do Boque” de Luís Filipe Correia Martins, lê-se que «1802 – Na Quinta da Cascalheira é fundada por Francisco Joaquim Moreira de Sá a Fábrica de Papel de Vizela. Foi construída pelo engenheiro inglês Tomás Bishop e nela se crê que tenha sido experimentada pela primeira vez a nível mundial a pasta de papel recorrendo a elementos vegetais, contrariando a versão desta patente a Friedrich Gottlob Keller em 1840.» Por outro lado em «A Indústria na Vila de Alenquer (1565-1931)» de José Henrique Tomé Lourenço é dito que «Sobre este novo processo, deve acrescentar-se que a fábrica de papel da Cascalheira – Vizela reinvindica o título de ter sido a primeira no mundo a fazer papel a partir da massa de madeira, um título algo contestado, como quase sempre acontece relativamente às inovações ou inventos técnicos. Fundado em 1802 por Francisco Joaquim Moreira de Sá, o estabelecimento teve o engenheiro inglês Thomas Bishop como sócio-gerente, sendo bem provavel que tenha sido este último a trazer para Portugal a nova técnica, uma vez que tal invento é atribuído a um seu conterrâneo, Mathias Koop em 1801.»
Voltando a Rui Moreira de Sá e Guerra podemos embrenharmo-nos em antigos documentos que suportam a tese de Francisco Joaquim Moreira de Sá ou de Thomas Bishop. Assim este refere a publicação de um Ode de José Raimundo de Passos de Proben Barbosa da Quinta de Caneiros nas proximidades de Guimarães e que foi juíz de fora da vila de Caxoeira no Brasil por decreto de 25-4-1804. O Ode a que se faz referência tem um extenso título como era moda na época «Estabelecendo-se uma grande fábrica de papel feito de vegetais (a primeira deste género que se conhece) na Quinta de Sá junto ao rio Vizela, pelo senhor Francisco Joaquim Moreira de Sá, fidalgo da casa de Sua Magestade, Cavaleiro confesso da Ordem de Cristo, e senhor da dita Quinta; celebra o dito interessante invento o senhor José Raimundo de Passos de Proben Barbosa, juíz de fora da vila de Caxoeira, na seginte Ode, dada à luz por uma amigo de ambos e da Pátria.» O Ode não tem data de publicação mas estima-se ser de 1804 sendo que o mesmo vem dotado de notas explicativas que ajudam na sua interpretação.
«Mas o varão sapiente arcanos abre;
Nem lhe é dado pisar trilhadas vias!
Agrestes produções da natureza
Darão matéria à pluma
Astro que lhe influi, propício
Que luzes vibra em torno ao Jove luso»

Ele não produz papel pelo processo antigo, não pisa trilhadas vias, mas abre arcanos porque inova o fabrico com pasta de madeira. O astro propiciador é António de Araújo Azevedo que concorreu em Londres para resolver o hábil Thomas Bishop a vir para Portugal e trabalhar com varão sapiente, Francisco Joaquim Moreira de Sá. O Jove luso é o Príncipe Regente D. João que recebeu as radiações daquele astro e as despachou favoravelmente. Proben celebra o invento com sendo de 1802 que é a data provável do mesmo.
Já se fez referência no capítulo anterior que a fábrica recebeu recebeu autorização régia para a sua construção em aviso de 13 de Dezembro de 1802. Terá sido pois antes que Francisco Joaquim Moreira de Sá se dirigiu em versos ao Príncipe regente D. João e à Princesa Carlota Joaquina, escritos no novo papel e que buscavam o apoio régio:
«Príncipe Augusto! Tu o impulso deste!
A química e os desejos trabalhraram;
Não debalde, Senhor! Que o fruto é este!»
A documentação não é conclusiva quanto à data do primeiro papel fabricado por Francisco Joaquim Moreira de Sá mas aponta para que seja de pelo menos 1802. Ora esta data é posterior à data em que Mathias Koop publicou o seu livro feito com papel produzido com palha e assim não se pode atribuir o invento a Moreira de Sá, porém é bem provável que o tenha conseguido produzir antes mas só nesse ano já com Thomas Bishop e com a fábrica que vinha a construir desde pelo menos 1798 se viu em condições de pedir autorização para o seu fabrico em escala industrial.
Não se conseguindo provar a antecipação de Francisco Joaquim Moreira de Sá a Mathias Koop parece muito claro que o papel com pasta de madeira foi fabricado quase 40 anos antes da invenção de Friedrich Gottlob Keller. Em qualquer um dos casos fica explícito que Francisco Joaquim Moreira de Sá foi pioneiro na utilização industrial desta técnica. Pena é que na documentação notarial conhecida não haja referências a que tipo de matéria vegetal usou Francisco Joaquim Moreira de Sá para produzir o seu papel pois só assim se poderia comparar directamente este invento com o de Friedrich Gottlob Keller. Escreveu Alberto Vieira Braga  em «Curiosidades de Guimarães», a matéria seria polpa de pinheiro, a ser assim a pasta de madeira mecânica foi inventada para a fábrica de Moreira de Sá em 1802.
Permanece porém a disputa da paternidade do invento entre Francisco Joaquim Moreira de Sá e Thomas Bishop, o seu engenheiro inglês. Já no capítulo anteriror se disse que a associação entre ambos foi uma combinação de interesses. Em 1805 no Alvará da fábrica está bem explícito que seria Thomas Bishop quem possuiria o domínio técnico para a produção de papel com materias vegetais e que ele ficava obrigado a revelar tudo quanto sabia e viesse ainda a descobrir no processo de fabrico de papel com essa nova técnica. Também parece óbvio que se Francisco Joaquim Moreira de Sá dominasse plenamente a técnica não precisaria de Thomaz Bishop.
Antes, em 1804 na escritura da fábrica um outro sentido se toma sobre as competências de Francisco Joaquim Moreira de Sá e Thomaz Bishop. Já no capítulo anterir transcrevemos parte deste documento onde é referido que o engenheiro inglês trabalharia no fabrico do papel sobre as instruções e fórmulas de Francisco Joaquim Moreira de Sá. Seria então o fidalgo da Casa de Sá que teria em mente o fabrico de papel com pasta de madeira e é possível que tivesse mesmo realizado algumas experiências com êxito que o catapultassem para a iniciativa da construção da fábrica. Moreira de Sá, também fruto da amizade com António de Araújo Azevedo, seria um homem informado dos avanços do mundo e que se deixaria motivar por eles. Em Thomaz Bishop Moreira de Sá terá encontrado alguém conhecedor da ciência capaz de consolidar as suas experiências. Pelo outro lado, Thomas Bishop teria o dominio do saber mas é provavel que teria dificuldade em o concretizar e terá visto em Francisco Joaquim Moreira de Sá quem teria a motivação e recusrsos necessários para aplicar tudo o que sabia.
Estudando a vida de Francisco Joaquim Moreira de Sá após a destruição da fábrica pelas tropas napoleonicas verifica-se que este continuou a perseguir o objectivo de produzir papel com matéria vegetal. Moreira de Sá chegou a ter planos para a construção de uma nova fábrica porém nunca terá conseguido reunir recursos económicos suficientes para a concretizar.