27/01/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (IV)



3 - Fábrica de Papel da Cascalheira

Em 5 de Janeiro de 1805, por alvará régio, assinado pelo Príncipe Regente e pelo Ministro da Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação, é concedida protecção Real à então designada Fábrica Real de Papel e de Tinturaria do Sá. «Eu o Príncipe regente Faço saber que sendo-Me presente, que Francisco Joaquim Moreira de Sá, proprietário da quinta denominada de Sá, sita na margem do Rio Vizella,... tem projectado construir na dita quinta huma Fábrica de Papel composto de matérias extrahidas de certas plantas, e ella anexa outra de Tinturaria,... tudo dirigido pelos vastos conhecimentos do hábil Tomaz Bishop, a quem tinhão convidado para a dita Sociedade... Attendendo a que esta empreza, pela sua importância, já demonstrada nos bons ensaios que apresentarão... era muito digna da minha imediata protecção; pois ainda que a arte de fazer papel de diversas fibras de vegetaes seja de tempo imemorial conhecida dos Chinas e Japonezes... com tudo os Emprendedores eram os primeiros Portugueses que se havião lembrado deste projecto.»

O alvará que acima se faz referência está disponível para leitura na integra no Google Books com base no livro “Collecção da legislação portuguesa desde a última compilação das ordebações” editado pela Tipografia Maigrense em 1826. Nele se diz ser invenção privativa de Tomaz Bishop o extrair de matéria fibrosa de vários vegetais para produção de papel que tornando assim desnecessário o trapo e que é concedida exclusividade da sua produção por vinte e cinco anos, fazendo parte desta exclusividade as manipulações já conhecidas e as que ainda se venham a descobrir ou novos usos fruto do aperfeiçoamento da técnica dado que ainda se está no início dessa descoberta. Nele também se descriminam as infracções a quem usurpar dos privilégios concedidos à Fábrica Real de Papel e de Tinturaria do Sá, sendo a multa para benefício do Hospital da Villa de Guimarães, ficando um terço para o denunciante caso o haja. São ainda concedidos outros privilégios semelhantes aos concedidos a outras fábricas, não pagando assim direitos de entrada pela maquinaria comprada no estrangeiro, nem direitos de saída pelos géneros que produzir e vender para fora do Reino.

Noutro documento anterior ao da escritura da sociedade, este datado de 13 de Dezembro de 1802 e assinado pelo príncipe regente D. João, é dada autorização para a construção da Fábrica Real de Papel e Tinturaria do Sá.

Francisco Joaquim Moreira de Sá preparava a construção da fábrica desde pelo menos 1798 e que, conforme se verificará mais à frente, em 1802 une-se a Thomaz Bishop para tão grandioso empreendimento. Conforme ditam os documentos assinados pelo Príncipe regente a invenção da produção de papel sem recurso ao trapo é da autoria de Thomaz Bishop, é por isso justo questionar se em 1798 Francisco Joaquim Moreira de Sá já planeava produzir papel sem utilização do trapo. O autor Rui Moreira de Sá e Guerra na sua publicação "A Prioridade do Fabrico de Papel com Pasta de Madeira na Quinta de Sá" conclui que desde pelo menos 1797 Francisco J. Moreira de Sá procurava soluções alternativas ao trapo para produção de papel e que a associação a Thomaz Bishop foi uma combinação de interesses comuns.

Diante destas conclusões pergunta-se como foi que Francisco J. Moreira de Sá e o inglês Thomaz Bishop chegaram ao conhecimento um do outro. Para esta questão também Rui Moreira de Sá e Guerra encontrou explicação. A primeira esposa de Francisco J. Moreira de Sá era parente afastada do Conde da Barca, António de Araújo Azevedo, diplomata por várias vezes representante do reino português em momentos marcantes da História da Europa. Em 1787 foi ministro extraordinário na corte de Haia e em 1795 foi ministro plenipotenciário em França. Foi-o novamente em 1797 e 1801. Em 1801 é também nomeado para a corte de São Petersburgo onde permanece por três anos. António de Araújo Azevedo era um homem de letras e ciência apaixonado pela industrialização. Segundo a Revista de História e Ideias volume 10 de 1988 em texto de Joaquim Pintassilgo “A Revolução Francesa na Perspectiva de um Diplomata”, desde Junho de 1789 António de Araújo Azevedo passa a percorrer atentamente a Inglaterra deslumbrado com as realizações industriais, numa época em que a Revolução Industrial estava no seu arranque. O Conde da Barca também seria amante das artes tipográficas pois em 1808, aquando da fuga para o Brasil com a coroa portuguesa sendo também acompanhado por Francisco Joaquim Moreira de Sá, levou consigo a sua livraria e uma tipografia completa que se transforma em 13 de Maio de 1808 em Imprensa Régia.

Segundo Rui Moreira de Sá e Guerra, António de Araújo e Azevedo estaria em Inglaterra em 1801 aquando da sua nomeação para São Petersburgo e terá sido nessa viagem que convence Thomaz Bishop a vir para Vizela para se associar a Francisco Joaquim Moreira de Sá e à sua fábrica de papel. Em 1802 é certo que Thomaz Bishop já habitava na Quinta de Sá e em 25 de Julho de 1803 nasceu, na Quinta de Sá, Luísa Francisca, filha de Thomas Bishop e sua esposa Tamzen Bishop sendo baptizada em Agosto do mesmo ano pelo vigário Joaquim Álvares Coelho de Avé Maria na igreja de Santa Eulália.

É possível que António de Araújo e Azevedo tenha sido mais do que um simples elo de ligação entre Thomaz Bishop e Moreira de Sá, pode ter sido o impulsionador do empreendimento que viria a nascer em Vizela, assim como também pode ter sido determinante para o seu arrasamento pelas tropas francesas em 1808. Durante a sua carreira diplomática entre 1795 e 1797 tentou negociar um tratado de paz com a França o que se revelou inconsequente. Pouco tempo depois, dada a gravidade da situação europeia, volta a ser enviado a Paris e em 10 de Agosto de 1797, consegue um acordo de paz que é anulado dois meses depois após hesitações de Portugal consequência da oposição britânica. Em sequência disso passou dois meses preso em França. Em 1807, já secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, recebeu intimação de Napolião Bonapart para fechar os portos aos navios ingleses e prender todos os súbditos britânicos em território nacional e demitisse o ministro inglês em Lisboa. Entretanto em Conselho de Estado venceu a posição de António de Araújo e Azevedo e Portugal acatou o pedido de fechar os portos mas não as outras condições. O futuro Conde da Barca era conhecido apoiante da causa francesa mas não foi suficiente para garantir a independência de Portugal. Ora estes acontecimentos também ditaram o encerramento precoce da fábrica de papel de Francisco Joaquim Moreira de Sá, porém a este assunto voltaremos em outro capítulo.

Voltando à escritura de 1804, existe na Sociedade Martins Sarmento uma cópia da referida escritura por oferta do Sr. Eng.º Moreira de Sá, que presumimos ser familiar descendente de Francisco Joaquim Moreira de Sá. Neste documento está devidamente clarificado que Thomaz Bishop possui conhecimentos e ciência na área de tinturaria, possivelmente mais do que na produção de papel, assim se entende: «E pelo outorgante Thomaz Bishop foi ditto que elle fora mandado vir pello sócio Francisco Moreira de Sá para fabircar o papel debaixo das suas instruçõens e operaçõens quimícas; e com effeito tem descoberto várias plantas e outras matérias para se fabricar sem dependência de trapos de que tem mostrado por experiência, e portanto está elle justo e contractado de ser o Director de toda a manipulação, tanto da Fábrica de Papel, como da Tinturaria, de que tem grandes conhecimentos e sciencia e isto pelo tempo de vinte e cinco annos…»

A sociedade tomou a designação de Ferraz Costa Fortuna e Companhia e como vimos não estaria apenas vocacionada para o fabrico de papel, pois ela também era de tinturaria. A escritura não  clarifica se a tinturaria se iria dedicar ao tingimento de papel ou tecidos mas transparece que seria uma actividade distinta da do papel, pelo que deveria ser de tecidos. A ser assim Francisco Joaquim Moreira de Sá além de ser pioneiro no fabrico de papel com massa de madeira, também terá criado uma das primeiras tinturarias de tecidos.

A fábrica de papel da Cascalheira não viria a ser construída na totalidade. Em 1808 sucumbiu às invasões francesas e o seu erector e António de Araújo e Azevedo acompanharam a Coroa portuguesa na fuga para o Brasil. Thomaz Bishop refugiou-se na América do Norte. Voltemos a este tema em próximos capítulos.

24/01/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (III)


3 - Fábrica de Papel da Cascalheira

Das fábricas de papel do rio Vizela, a da Cascalheira não foi a primeira, porém Portugal fez história pela primeira vez em contexto industrial. A fábrica foi uma referência tecnológica a nível mundial utilizando-se pela primeira vez, pelo menos à escala industrial, massa de madeira para o fabrico de papel.  

A escritura da fábrica de papel da Cascalheira foi assinada em 28 de Abril de 1804 por Francisco Joaquim Moreira de Sá e outros 6 sócios. Os preparativos para a edificação desta fábrica foram iniciados alguns anos antes. Rui Moreira de Sá e Guerra em "A Prioridade do Fabrico de Papel com Pasta de Madeira na Quinta de Sá" disso nos dá conta.

Francisco Joaquim Moreira de Sá em 1798, a 15 de Janeiro, vendeu a José António Teixeira, homem de negócios da vila de Guimarães, e a sua esposa Teresa Álvares de Abreu Cardoso, os direitos de arrendamento dos Casais do Bôco em Tagilde, cujo senhorio era o Abade de Tagilde, 69 medidas de pão e Vinho, 30 arráteis de marrão e 50 reis em dinheiro, pelo preço de 505 mil reis. Neste contrato ficou previsto receber apenas 155 mil reis ficando os restantes 350 retidos pelos prejuízos que a construção da fábrica causaria às moagens da Quinta de Lagoas na margem direita do rio Vizela. Moreira de Sá pretendia levantar o rio acima da última levada dos moinhos e azenhas da Quinta de Lagoas para a nova passagem da água para a fábrica cuja construção havia principiado mais abaixo. José António Teixeira e sua esposa, ao abrigo deste contrato, consentiam estas mudanças e vendiam a servidão dos campos e leiras, da Quinta de Lagoas, necessárias à construção do canal que teria 12 palmos de álveo. Moreira de Sá construiria ainda pontilhões sobre o canal para passagem a pé e de carro para os campos de um lado e outro. Esta escritura foi lavrada pelo tabelião de Guimarães Nicolau Pereira. Na mesma escritura está ainda assente que se edificaria um arco sobre o rio que seria uma servidão particular para limpeza do canal e guiar as águas e que na margem esquerda teria uma porta que fechasse a passagem.

Dois anos depois, a 9 de Agosto de 1800, Moreira de Sá vendeu a Francisco José da Costa de Margaride, Felgueiras, quinze alqueires de milhão, meio almude de vinho, três galinhas e 40 reis em dinheiro pelos campos da Casa Nova, na Corredoura freguesia de Margaride. Pela venda recebeu 136 mil e 800 reis.

Os contratos estudados por Rui Moreira de Sá e Guerra são uma indicação da grandiosidade do empreendimento, desde logo pela necessidade que o empreendedor teve em vender propriedades para se munir dos necessários recursos financeiros. Francisco Joaquim Moreira de Sá era um homem rico que pertencia à nobreza e próximo da Corte pelo que todos os preparativos financeiros reforçam a grandeza da fábrica de papel que viria a construir. Por outro lado o primeiro contrato elenca com algum detalhe todo um conjunto de obras hidráulicas em projecto para o abastecimento de água à fábrica. A própria escritura de fundação da fábrica faz transparecer a dimensão do projecto, primeiro pela quantidade de sócios envolvidos, José Pereira Ferraz, Manuel Luís da Costa, José Ventura Fortuna, José Pereira Ferraz Araújo Ribeiro, Flórido Pereira Ferraz e Thomas Bishop que também seria o director técnico, e segundo pelas descrições que faz do projecto.

«..tendo determinado estabelecer huma Fábrica de papel… tinha construído a Casa e canal para o Laboratório dela». continua dizendo que é com esses bens que Moreira de Sá entra para a sociedade «com a caza que tem edificada para a mesma Fábrica e Laboratório das Máquinas, a qual tem trezentos palmos de comprido e oitenta e dous palmos de largo alem dos respectivos corpos salientes e com as duas cazas para a cola e escolha de materiais, cujas anda construindo, que tudo porá prompto, e acabado a sua custa; bem como edificará às suas custas as cazas que forem necessárias para armazéns do papel…» acrescenta que enquanto não construir estes armazéns «cede interinanente das dez cazas que naquele mesmo sitio tem para uso da lavoura; e igualmente fica obrigado a acabar a sua custa o canal diversorio que conduz as agoas do Rio Vizella para as Rodas da Fábrica…».

20/01/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (II)


2 - Contexto da Indústria de Papel Antiga 

O papel foi descoberto na China no século II a.c. mas só chegou á Europa no século VIII d.c. tendo sido introduzido pelos árabes. Foi no ano de 751 após a batalha de Samarcanda em que os chineses foram derrotados pelos árabes . Porém os primeiros registos de produção de papel são já do século X e situam-se no sul de Espanha, em Valência. Segue-se Itália no século XIII, França no século XIV e Portugal no ano de 1411 nos moinhos de Leiria.

O papel da época era fabricado com trapos de origem vegetal, geralmente linho ou cânhamo o qual era macerado em água de cal. As primeiras unidades produtivas eram rudimentares e consistiram na conversão de moagens de cereais em moinhos de papel. Os cilindros da moagem eram usados para macerar os trapos na já dita água de cal reduzindo-a a uma pasta que depois de estendida e seca se transformava em papel.

Em 1411 Gonçalo Lourenço, que possuía moinhos de cereais em ruínas no rio Liz em Leiria, solicitou licença para os reconverter em moinhos para papel, assim se pode ler em “Rota do Papel do Vale do Ceira e da Serra da Lousã – A Fábrica de Papel do Boque” de Luís Filipe Correia Martins na sua dissertação de mestrado da Universidade de Coimbra. Sabe-se que dificuldades várias impediram a realização imediata do projecto mas pelo menos em 1441 ali fabricava-se papel. Neste como em outros moinhos de papel era comum coexistir três actividades, produção de azeite, moagem de cereais e fabrico de papel. Esta complementaridade existia porque os artefactos para a produção dos três produtos eram semelhantes, na verdade o papel surgiu como mais uma forma de aumentar a rentabilidade dos moinhos de cereais. Em Penela, por exemplo, no mesmo espaço produzia-se papel e lã, neste caso a lã, além dos fins óbvios servia também como matéria prima para a produção de papel.

A localização destes moinhos, também designados de engenhos de papel, era por razões óbvias junto dos cursos de água a qual deveria ter poucos sais minerais, como o ferro que podia colorir o papel, e isenta de calcário para que o papel fosse macio. Eram assim escolhidos cursos de água em leitos graníticos. A água era importante como matéria prima e como força motriz. Rios como o Vizela, Cávado, Trancão, Nabão, Almonda Caima e Ceira ficaram para sempre associados à História do papel.

A invenção da imprensa em 1440 pelo alemão Gutemberg veio alavancar a produção de papel sobretudo no que à qualidade diz respeito. Note.se que o primeiro moinho de papel só chegou à América em 1690 e em 1494 à Inglaterra, 83 anos depois do primeiro moinho de papel português.

A tese de mestrado de Luís Filipe Correia Martins faz uma cronologia dos principais engenhos e fábricas de papel em Portugal, assim após os moinhos de Leiria em 1411, surgem em 1537 os de Fervença em Alcobaça, em 1565 os de Alenquer que julga terem dado origem à Fábrica de Papel da Ota e só em 1708 é que surge o próximo empreendimento de destaque, a Fábrica de Casal da Lapa em Santa Maria da Feira. Logo a seguir em 1716 é criado o Engenho Velho da Lousã que em 1748 se torna na Fábrica de Papel da Lousã, ainda em actividade. Daqui em diante os engenhos e fábricas de papel sucedem-se. Enumerando apenas algumas, em 1740 a fábrica de Paranhos em Braga; em 1750 outra em Braga a de S. José; em 1787 a Fábrica de Papel de São Paio em Moreira de Cónegos, no rio Vizela, de António Álvares Ribeiro; em 1802 a Fábrica de Papel de Vizela de Francisco Joaquim Moreira de Sá, também no rio Vizela e que produziu papel sem recurso ao trapo, utilizando pasta de madeira, sendo a primeira do mundo a fazê-lo; em 1810 outra no rio Vizela a Ribeiro e C.ª; em 1814 outra também no rio Vizela em Moreira de Cónegos e uma outra muito próxima, em Guimarães em Coito de Refoios; em 1818 é fundada a Renova em Torres Novas, ainda em actividade. Muitas mais se sucedem certamente importantes no contexto nacional mas não relevantes para estes apontamentos.

Uma outra tese de mestrado, esta de José Henrique Tomé Lourenço, «A Indústria na Vila de Alenquer (1565-1931)» submetida em 2009 à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, faz uma outra cronologia a qual difere da anterior pois refere uma fábrica em Braga nas margens do rio Este, junto à Fonte dos Galos cuja fundação foi anterior à da Lousã, em 1706, sendo assim a mais antiga de Portugal com características industriais. Esta fábrica terá encerrado em 1740. Este autor refere que estas fábricas antigas produziam papel a partir do trapo, linho e cânhamo, por resultar em papel de melhor qualidade. Nessa época o trapo era matéria prima muito valiosa tendo sido mesmo objecto de exportação. O comércio do trapo era uma actividade muito lucrativa sendo os seus agentes designados por trapeiros ou farrapeiros. Com a proliferação das fábricas de papel, não só em Portugal mas também na Europa, a matéria prima começou a escassear e por isso em 19 de Abril de 1749 por alvará régio foi proibida a exportação do trapo branco e preto e o referido diploma explica que é para que não falte o trapo à fábrica da Lousã. Diz o documento que a fábrica se encontra em termos de não poder subsistir por falta de trapos por haver neste Reino homens que os compram e o mandam para fora dele, não só por negócio, mas também para que a fábrica feche. Só em meados do séculos XIX é que este negócio perde importância com a introdução do fabrico de papel com outros elementos vegetais. É então que o autor destaca a Fábrica de Papel de Vizela de Francisco Joaquim Moreira de Sá que quase meio século antes testou este método de produção tendo porém  sido destruída durante as invasões francesas.

Pode falar-se de tradição no fabrico de papel no rio Vizela, é assim que no VI Seminário Latino-Americano e II Ibero-Americano de Geografia Física, Francisco da Silva Costa do Departamento de Geografia da Universidade do Minho abordou o tema em Maio de 2010. No rio Vizela concentraram-se várias fábricas de papel a partir do século XVIII e menciona em primeiro lugar a fábrica de Francisco Joaquim Moreira de Sá. Na área de confluência do Vizela com o rio Ave existiu a fábrica de papel Mendes e Machado, Lda que albergava ainda no mesmo edifício uma moagem e serração de madeira destinada a secadouro de papel. Todas elas actividades que recorriam à força hidráulica como fonte de energia.
Subindo o rio, em S. Martinho do Campo, no início do século XX existiu uma importante industria de papel, a Fábrica de Papel Espinho de António da Cunha Lima, posteriormente designada Empreza do rio Vizela. Já em Fafe, em Queimaterra, freguesia de Fareja existiu a firma José Ribeiro Correia e que em 1933 teve licença para colocar tábuas sobre o açude da sua fábrica de papel. Em 11 de Agosto de 1951 o seu proprietário Adelino Lopes teve licença para instalação de uma roda hidráulica de 10 hp e a reconstrução de um edifício na margem direita e sua adaptação para fábrica de papel. Num afluente o rio Vizela, no rio Ferro, no lugar de Cavadas, freguesia de Fafe, existiu também a fábrica de papel de Cavadas.
Contamos assim pelo menos sete fábricas de papel no rio Vizela, mas nas imediações, também existiram algumas, no rio Ave, em Vila do Conde existiu a Fábrica de Papel do Ave, Lda, criada em 1923 resultando da reconversão de uma moagem e outra em Castelões, Guimarães. Em Gondifelos, Vila Nova de Famalicão, existiram duas no rio Este, uma delas, a Fábrica de Papel de Penices fundada nos anos vinte do século passado laborou até 2003.
Toda a região do Ave, com especial incidência no Vale do Vizela, foi um importante centro de produção de papel antes de vir a ser conhecido pela concentração das grandes têxteis do país. Num processo contínuo de reconversão dos edifícios, do mesmo modo que as indústrias de papel em muitos casos nasceram em antigas moagens, várias têxteis instalaram-se em edifícios destas antigas fábricas de papel. A firma Alfredo da Silva Araújo & C.ª Lda, no lugar da Abelheira, freguesia de Castelões, concelho de Guimarães, nasceu no mesmo edifício onde antes existiu uma fábrica de papel, tendo em 1928 pedido licença para reconversão do aproveitamento e reforço do açude. Alberto Vieira Braga em «Curiosidades de Guimarães» diz que o Abade de Tagilde em livros manuscritos relata a existência de uma fábrica de papel no lugar da Abelheira, freguesia de Castelões, pertencente a Domingos Alves, natural da Senhora do Porto. Voltando a Francisco da Silva Costa diz que aqui existiram quatro actividades, moagem, serração, fábrica de papel e têxtil que chegaram a funcionar em simultâneo, tendo por fim se dedicado exclusivamente ao sector têxtil. Ainda a título de curiosidade sobre a Alfredo da Silva Araújo & C.ª Lda, também conhecida por Fiação da Abelheira, em meados da década de noventa do século passado foi adquirida pelo empresário vizelense José Vaz Pinheiro à qual, anos mais tarde lhe juntou uma nova unidade produtiva na freguesia de Tagilde, concelho de Vizela, em instalações que já possuía e que antes eram conhecidas como fábrica dos indianos. A fiação da Abelheira cessou produção em meados da primeira década já deste século XXI.

(seguinte)

07/01/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (I)


1 - Notas Iniciais

O Vale do Vizela foi desde finais do século XVIII aos primeiros anos do século XX um significativo pólo industrial do sector papeleiro. Quase quatro décadas antes da invenção oficial da pasta de madeira em 1840 por Friedrich Gottlob Keller, Francisco Joaquim Moreira de Sá empreendeu uma fábrica na quinta da Cascalheira, na margem esquerda do rio Vizela, que em 1802 produziu o primeiro papel com recurso à matéria lenhosa como matéria prima. Poucos anos depois as invasões francesas ditaram o encerramento da fábrica. Antes uma outra fábrica havia sido construída em Moreira de Cónegos produzindo papel de elevada qualidade com a marca "Papel das Caldas" muito apreciada pela corte.

Outras existiram nas margens do Vizela, são porém memórias imateriais na medida em que não nos chegaram vestígios físicos conhecidos. Não obstante existem documentos notariais e obras de investigação que confirmam a sua existência. Nos últimos anos o tema das antigas fábricas de papel tem sido matéria de inúmeras teses de doutoramento. No entanto nota-se uma ausência de um estudo suficientemente aprofundado e dedicado em exclusivo às fábricas do rio Vizela. Interessa-nos o artigo de Rui Moreira de Sá e Guerra, "A Prioridade do Fabrico de Papel com Pasta de Madeira na Quinta de Sá", publicado na edição de 1985 da Revista de Guimarães, de qualquer modo esta documentação dedica-se em exclusivo à fábrica de Francisco Joaquim Moreira de Sá.

Os apontamentos que agora se escrevem são uma compilação de informação sobre as fábricas de papel do rio Vizela. Não pretendem de modo nenhum trazer à luz do dia novas descobertas sobre este tema, são antes o resultado do cruzamento de várias publicações e estudos todos eles disponíveis na grande biblioteca que é a Internet, porém, aqui e ali podem surgir dúvidas ou sugestões para novas linhas de estudo resultado do grande potencial de pesquisa que a web oferece.

Conforme se disse a indústria de papel tem em Vizela um grande património imaterial deixado pelos antepassados que os contemporâneos têm obrigação de materializar em prol da indústria do turismo e da cultura, mais, em tempos economicamente difíceis como estes em que vivemos é um grande desperdício não o capitalizar . De qualquer modo este será o tema do último capítulo.