24/01/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (III)


3 - Fábrica de Papel da Cascalheira

Das fábricas de papel do rio Vizela, a da Cascalheira não foi a primeira, porém Portugal fez história pela primeira vez em contexto industrial. A fábrica foi uma referência tecnológica a nível mundial utilizando-se pela primeira vez, pelo menos à escala industrial, massa de madeira para o fabrico de papel.  

A escritura da fábrica de papel da Cascalheira foi assinada em 28 de Abril de 1804 por Francisco Joaquim Moreira de Sá e outros 6 sócios. Os preparativos para a edificação desta fábrica foram iniciados alguns anos antes. Rui Moreira de Sá e Guerra em "A Prioridade do Fabrico de Papel com Pasta de Madeira na Quinta de Sá" disso nos dá conta.

Francisco Joaquim Moreira de Sá em 1798, a 15 de Janeiro, vendeu a José António Teixeira, homem de negócios da vila de Guimarães, e a sua esposa Teresa Álvares de Abreu Cardoso, os direitos de arrendamento dos Casais do Bôco em Tagilde, cujo senhorio era o Abade de Tagilde, 69 medidas de pão e Vinho, 30 arráteis de marrão e 50 reis em dinheiro, pelo preço de 505 mil reis. Neste contrato ficou previsto receber apenas 155 mil reis ficando os restantes 350 retidos pelos prejuízos que a construção da fábrica causaria às moagens da Quinta de Lagoas na margem direita do rio Vizela. Moreira de Sá pretendia levantar o rio acima da última levada dos moinhos e azenhas da Quinta de Lagoas para a nova passagem da água para a fábrica cuja construção havia principiado mais abaixo. José António Teixeira e sua esposa, ao abrigo deste contrato, consentiam estas mudanças e vendiam a servidão dos campos e leiras, da Quinta de Lagoas, necessárias à construção do canal que teria 12 palmos de álveo. Moreira de Sá construiria ainda pontilhões sobre o canal para passagem a pé e de carro para os campos de um lado e outro. Esta escritura foi lavrada pelo tabelião de Guimarães Nicolau Pereira. Na mesma escritura está ainda assente que se edificaria um arco sobre o rio que seria uma servidão particular para limpeza do canal e guiar as águas e que na margem esquerda teria uma porta que fechasse a passagem.

Dois anos depois, a 9 de Agosto de 1800, Moreira de Sá vendeu a Francisco José da Costa de Margaride, Felgueiras, quinze alqueires de milhão, meio almude de vinho, três galinhas e 40 reis em dinheiro pelos campos da Casa Nova, na Corredoura freguesia de Margaride. Pela venda recebeu 136 mil e 800 reis.

Os contratos estudados por Rui Moreira de Sá e Guerra são uma indicação da grandiosidade do empreendimento, desde logo pela necessidade que o empreendedor teve em vender propriedades para se munir dos necessários recursos financeiros. Francisco Joaquim Moreira de Sá era um homem rico que pertencia à nobreza e próximo da Corte pelo que todos os preparativos financeiros reforçam a grandeza da fábrica de papel que viria a construir. Por outro lado o primeiro contrato elenca com algum detalhe todo um conjunto de obras hidráulicas em projecto para o abastecimento de água à fábrica. A própria escritura de fundação da fábrica faz transparecer a dimensão do projecto, primeiro pela quantidade de sócios envolvidos, José Pereira Ferraz, Manuel Luís da Costa, José Ventura Fortuna, José Pereira Ferraz Araújo Ribeiro, Flórido Pereira Ferraz e Thomas Bishop que também seria o director técnico, e segundo pelas descrições que faz do projecto.

«..tendo determinado estabelecer huma Fábrica de papel… tinha construído a Casa e canal para o Laboratório dela». continua dizendo que é com esses bens que Moreira de Sá entra para a sociedade «com a caza que tem edificada para a mesma Fábrica e Laboratório das Máquinas, a qual tem trezentos palmos de comprido e oitenta e dous palmos de largo alem dos respectivos corpos salientes e com as duas cazas para a cola e escolha de materiais, cujas anda construindo, que tudo porá prompto, e acabado a sua custa; bem como edificará às suas custas as cazas que forem necessárias para armazéns do papel…» acrescenta que enquanto não construir estes armazéns «cede interinanente das dez cazas que naquele mesmo sitio tem para uso da lavoura; e igualmente fica obrigado a acabar a sua custa o canal diversorio que conduz as agoas do Rio Vizella para as Rodas da Fábrica…».

20/01/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (II)


2 - Contexto da Indústria de Papel Antiga 

O papel foi descoberto na China no século II a.c. mas só chegou á Europa no século VIII d.c. tendo sido introduzido pelos árabes. Foi no ano de 751 após a batalha de Samarcanda em que os chineses foram derrotados pelos árabes . Porém os primeiros registos de produção de papel são já do século X e situam-se no sul de Espanha, em Valência. Segue-se Itália no século XIII, França no século XIV e Portugal no ano de 1411 nos moinhos de Leiria.

O papel da época era fabricado com trapos de origem vegetal, geralmente linho ou cânhamo o qual era macerado em água de cal. As primeiras unidades produtivas eram rudimentares e consistiram na conversão de moagens de cereais em moinhos de papel. Os cilindros da moagem eram usados para macerar os trapos na já dita água de cal reduzindo-a a uma pasta que depois de estendida e seca se transformava em papel.

Em 1411 Gonçalo Lourenço, que possuía moinhos de cereais em ruínas no rio Liz em Leiria, solicitou licença para os reconverter em moinhos para papel, assim se pode ler em “Rota do Papel do Vale do Ceira e da Serra da Lousã – A Fábrica de Papel do Boque” de Luís Filipe Correia Martins na sua dissertação de mestrado da Universidade de Coimbra. Sabe-se que dificuldades várias impediram a realização imediata do projecto mas pelo menos em 1441 ali fabricava-se papel. Neste como em outros moinhos de papel era comum coexistir três actividades, produção de azeite, moagem de cereais e fabrico de papel. Esta complementaridade existia porque os artefactos para a produção dos três produtos eram semelhantes, na verdade o papel surgiu como mais uma forma de aumentar a rentabilidade dos moinhos de cereais. Em Penela, por exemplo, no mesmo espaço produzia-se papel e lã, neste caso a lã, além dos fins óbvios servia também como matéria prima para a produção de papel.

A localização destes moinhos, também designados de engenhos de papel, era por razões óbvias junto dos cursos de água a qual deveria ter poucos sais minerais, como o ferro que podia colorir o papel, e isenta de calcário para que o papel fosse macio. Eram assim escolhidos cursos de água em leitos graníticos. A água era importante como matéria prima e como força motriz. Rios como o Vizela, Cávado, Trancão, Nabão, Almonda Caima e Ceira ficaram para sempre associados à História do papel.

A invenção da imprensa em 1440 pelo alemão Gutemberg veio alavancar a produção de papel sobretudo no que à qualidade diz respeito. Note.se que o primeiro moinho de papel só chegou à América em 1690 e em 1494 à Inglaterra, 83 anos depois do primeiro moinho de papel português.

A tese de mestrado de Luís Filipe Correia Martins faz uma cronologia dos principais engenhos e fábricas de papel em Portugal, assim após os moinhos de Leiria em 1411, surgem em 1537 os de Fervença em Alcobaça, em 1565 os de Alenquer que julga terem dado origem à Fábrica de Papel da Ota e só em 1708 é que surge o próximo empreendimento de destaque, a Fábrica de Casal da Lapa em Santa Maria da Feira. Logo a seguir em 1716 é criado o Engenho Velho da Lousã que em 1748 se torna na Fábrica de Papel da Lousã, ainda em actividade. Daqui em diante os engenhos e fábricas de papel sucedem-se. Enumerando apenas algumas, em 1740 a fábrica de Paranhos em Braga; em 1750 outra em Braga a de S. José; em 1787 a Fábrica de Papel de São Paio em Moreira de Cónegos, no rio Vizela, de António Álvares Ribeiro; em 1802 a Fábrica de Papel de Vizela de Francisco Joaquim Moreira de Sá, também no rio Vizela e que produziu papel sem recurso ao trapo, utilizando pasta de madeira, sendo a primeira do mundo a fazê-lo; em 1810 outra no rio Vizela a Ribeiro e C.ª; em 1814 outra também no rio Vizela em Moreira de Cónegos e uma outra muito próxima, em Guimarães em Coito de Refoios; em 1818 é fundada a Renova em Torres Novas, ainda em actividade. Muitas mais se sucedem certamente importantes no contexto nacional mas não relevantes para estes apontamentos.

Uma outra tese de mestrado, esta de José Henrique Tomé Lourenço, «A Indústria na Vila de Alenquer (1565-1931)» submetida em 2009 à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, faz uma outra cronologia a qual difere da anterior pois refere uma fábrica em Braga nas margens do rio Este, junto à Fonte dos Galos cuja fundação foi anterior à da Lousã, em 1706, sendo assim a mais antiga de Portugal com características industriais. Esta fábrica terá encerrado em 1740. Este autor refere que estas fábricas antigas produziam papel a partir do trapo, linho e cânhamo, por resultar em papel de melhor qualidade. Nessa época o trapo era matéria prima muito valiosa tendo sido mesmo objecto de exportação. O comércio do trapo era uma actividade muito lucrativa sendo os seus agentes designados por trapeiros ou farrapeiros. Com a proliferação das fábricas de papel, não só em Portugal mas também na Europa, a matéria prima começou a escassear e por isso em 19 de Abril de 1749 por alvará régio foi proibida a exportação do trapo branco e preto e o referido diploma explica que é para que não falte o trapo à fábrica da Lousã. Diz o documento que a fábrica se encontra em termos de não poder subsistir por falta de trapos por haver neste Reino homens que os compram e o mandam para fora dele, não só por negócio, mas também para que a fábrica feche. Só em meados do séculos XIX é que este negócio perde importância com a introdução do fabrico de papel com outros elementos vegetais. É então que o autor destaca a Fábrica de Papel de Vizela de Francisco Joaquim Moreira de Sá que quase meio século antes testou este método de produção tendo porém  sido destruída durante as invasões francesas.

Pode falar-se de tradição no fabrico de papel no rio Vizela, é assim que no VI Seminário Latino-Americano e II Ibero-Americano de Geografia Física, Francisco da Silva Costa do Departamento de Geografia da Universidade do Minho abordou o tema em Maio de 2010. No rio Vizela concentraram-se várias fábricas de papel a partir do século XVIII e menciona em primeiro lugar a fábrica de Francisco Joaquim Moreira de Sá. Na área de confluência do Vizela com o rio Ave existiu a fábrica de papel Mendes e Machado, Lda que albergava ainda no mesmo edifício uma moagem e serração de madeira destinada a secadouro de papel. Todas elas actividades que recorriam à força hidráulica como fonte de energia.
Subindo o rio, em S. Martinho do Campo, no início do século XX existiu uma importante industria de papel, a Fábrica de Papel Espinho de António da Cunha Lima, posteriormente designada Empreza do rio Vizela. Já em Fafe, em Queimaterra, freguesia de Fareja existiu a firma José Ribeiro Correia e que em 1933 teve licença para colocar tábuas sobre o açude da sua fábrica de papel. Em 11 de Agosto de 1951 o seu proprietário Adelino Lopes teve licença para instalação de uma roda hidráulica de 10 hp e a reconstrução de um edifício na margem direita e sua adaptação para fábrica de papel. Num afluente o rio Vizela, no rio Ferro, no lugar de Cavadas, freguesia de Fafe, existiu também a fábrica de papel de Cavadas.
Contamos assim pelo menos sete fábricas de papel no rio Vizela, mas nas imediações, também existiram algumas, no rio Ave, em Vila do Conde existiu a Fábrica de Papel do Ave, Lda, criada em 1923 resultando da reconversão de uma moagem e outra em Castelões, Guimarães. Em Gondifelos, Vila Nova de Famalicão, existiram duas no rio Este, uma delas, a Fábrica de Papel de Penices fundada nos anos vinte do século passado laborou até 2003.
Toda a região do Ave, com especial incidência no Vale do Vizela, foi um importante centro de produção de papel antes de vir a ser conhecido pela concentração das grandes têxteis do país. Num processo contínuo de reconversão dos edifícios, do mesmo modo que as indústrias de papel em muitos casos nasceram em antigas moagens, várias têxteis instalaram-se em edifícios destas antigas fábricas de papel. A firma Alfredo da Silva Araújo & C.ª Lda, no lugar da Abelheira, freguesia de Castelões, concelho de Guimarães, nasceu no mesmo edifício onde antes existiu uma fábrica de papel, tendo em 1928 pedido licença para reconversão do aproveitamento e reforço do açude. Alberto Vieira Braga em «Curiosidades de Guimarães» diz que o Abade de Tagilde em livros manuscritos relata a existência de uma fábrica de papel no lugar da Abelheira, freguesia de Castelões, pertencente a Domingos Alves, natural da Senhora do Porto. Voltando a Francisco da Silva Costa diz que aqui existiram quatro actividades, moagem, serração, fábrica de papel e têxtil que chegaram a funcionar em simultâneo, tendo por fim se dedicado exclusivamente ao sector têxtil. Ainda a título de curiosidade sobre a Alfredo da Silva Araújo & C.ª Lda, também conhecida por Fiação da Abelheira, em meados da década de noventa do século passado foi adquirida pelo empresário vizelense José Vaz Pinheiro à qual, anos mais tarde lhe juntou uma nova unidade produtiva na freguesia de Tagilde, concelho de Vizela, em instalações que já possuía e que antes eram conhecidas como fábrica dos indianos. A fiação da Abelheira cessou produção em meados da primeira década já deste século XXI.

(seguinte)

07/01/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (I)


1 - Notas Iniciais

O Vale do Vizela foi desde finais do século XVIII aos primeiros anos do século XX um significativo pólo industrial do sector papeleiro. Quase quatro décadas antes da invenção oficial da pasta de madeira em 1840 por Friedrich Gottlob Keller, Francisco Joaquim Moreira de Sá empreendeu uma fábrica na quinta da Cascalheira, na margem esquerda do rio Vizela, que em 1802 produziu o primeiro papel com recurso à matéria lenhosa como matéria prima. Poucos anos depois as invasões francesas ditaram o encerramento da fábrica. Antes uma outra fábrica havia sido construída em Moreira de Cónegos produzindo papel de elevada qualidade com a marca "Papel das Caldas" muito apreciada pela corte.

Outras existiram nas margens do Vizela, são porém memórias imateriais na medida em que não nos chegaram vestígios físicos conhecidos. Não obstante existem documentos notariais e obras de investigação que confirmam a sua existência. Nos últimos anos o tema das antigas fábricas de papel tem sido matéria de inúmeras teses de doutoramento. No entanto nota-se uma ausência de um estudo suficientemente aprofundado e dedicado em exclusivo às fábricas do rio Vizela. Interessa-nos o artigo de Rui Moreira de Sá e Guerra, "A Prioridade do Fabrico de Papel com Pasta de Madeira na Quinta de Sá", publicado na edição de 1985 da Revista de Guimarães, de qualquer modo esta documentação dedica-se em exclusivo à fábrica de Francisco Joaquim Moreira de Sá.

Os apontamentos que agora se escrevem são uma compilação de informação sobre as fábricas de papel do rio Vizela. Não pretendem de modo nenhum trazer à luz do dia novas descobertas sobre este tema, são antes o resultado do cruzamento de várias publicações e estudos todos eles disponíveis na grande biblioteca que é a Internet, porém, aqui e ali podem surgir dúvidas ou sugestões para novas linhas de estudo resultado do grande potencial de pesquisa que a web oferece.

Conforme se disse a indústria de papel tem em Vizela um grande património imaterial deixado pelos antepassados que os contemporâneos têm obrigação de materializar em prol da indústria do turismo e da cultura, mais, em tempos economicamente difíceis como estes em que vivemos é um grande desperdício não o capitalizar . De qualquer modo este será o tema do último capítulo.

21/10/2012

Vendedores de Comida de Cascais

São já típicos em muitos locais turísticos, não raras vezes incomodativos. Em Cascais encontrei-os  no Largo Luís de Camões do mais ilustrativo e castiço, chegando mesmo a ser animação e companhia de refeição.

 O eleito pelos seus pares como o Pit Bull.


O menino brasileiro já Homem que veio para Portugal seguindo os passos de pai e para estudar, acabou a trabalhar e com família para sustentar. Apaixonou-se pele hotelaria e planeia agora voltar ao Brasil para abrir o seu próprio restaurante.