08/11/2011

PDM Vizela (I)


Exmo. Sr. Vereador Dr. Vitor Hugo Salgado de Abreu,
neste momento de discussão pública do PDM de Vizela, no âmbito do direito e dever de cidadania lanço algumas notas e dúvidas que resultam de um primeiro e rápido olhar aos elementos que compõe este PDM. Devo acrescentar que o conteúdo deste mail é aberto e por isso o mesmo se encontra publicado em http://mirandablogue.blogspot.com/.
 Assim:
  1. A zona da igreja velha de S. Miguel não vem referenciada na carta arqueológica como sendo localização de património arqueológico quando é do conhecimento público e cientifico a existência de um vasto conjunto de vestígios arqueológicos.
  2. Do mesmo modo a cista localizada no monte de S. Bento não vem inscrita na mesma carta arquelógica nem como património construído a preservar.
  3. No relatório de PDM é feito uma extensivo levantamento dos equipamentos desportivos existentes do Concelho de Vizela, assim como das ainda insuficiências neste domínio. Porque motivo não é dado igual tratamento a equipamentos culturais (salas de espectáculos / polivalentes, museus, bibliotecas, etc...)?
  4. O PDM refere a criação de novas centralidades presume-se fora da zona urbana. Concretamente a que locais se refere e que estratégias estão definidas para a sua implementação.
  5. Algures nos elementos do PDM encontrei um breve capítulo com referências a questões energéticas mas pareceu-me omisso quanto a uma política de transportes públicos e seu impacto na redução de combustíveis.
  6. Porque razão a rota para ligação de Vizela à A11 inscrita no mapa de ordenamento funcional se desvia fortemente para Santo Adrião precorrendo zona de Reserva Agrícola Nacional em lugar de atravessar em Rielhe pela  margem direita do Ribeiro de Sá e sobrepor-se à EN 207-1 na rua de Sá até Pousada e depois sobre a rua de Britelo requalificando esta ou em alternativa um novo troço entre esta e a Sra. da Tocha. Parece ser uma solução mais económica, razoavelmente funcional e que poderá permitir uma execução mais rápida e em simultâneo retira futura pressão urbanística em zona de Reserva Agrícola Nacional. 
  7. No calendário de execuções porque razão o parque industrial não consta como 1ª prioridade, ou seja como de execução imediata.

Desde já agradeço o melhor acolhimento e os vossos comentários a estas notas.

Sem mais de momento

05/11/2011

Retrospectiva - Retrato Histórico e Popular de Tagilde



Por Jorge Miranda (16 de Janeiro de 2000 - Revisto em 25 de Junho de 2001)

A respeito de Tagilde, ocorrem-me instantaneamente dois acontecimentos, que se revelam de importância nacional, ou até mesmo mundial.
O primeiro, está relacionado com S. Gonçalo de Amarante. Na verdade, este conhecido santo casamenteiro, nasceu nesta freguesia, no lugar de Arriconha. Na biografia oficial consta que o seu nascimento se deu no ano de 1187. Na história popular, diz-se que o povo de Tagilde não o quis por ser demasiado traquinas. Na verdade não faltam lendas em redor desta personalidade. É bem conhecida aquela, em que na sua infância, S. Gonçalo ficou incumbido, por seus pais, de proteger o milho alvo do bico dos pássaros. Este, como o que queria era brincadeira, não teve meias, medidas, vai daí prendei-os no alpendre e assim já podia brincar descansado. E que brincadeiras que ele tinha. É conhecido o seu "atrevimento" para com as moças que iam à fonte; malandro como era partia-lhes o cântaro e deixava-as desesperadas ao ponto de pedirem ajuda. Claro está que quando voltavam, o cântaro estava intacto. Então por estas e por outras, como disse, o povo de Tagilde expulsou-o da terra. Este, atirou a bengala, que caiu na freguesia vizinha de S. Paio de Vizela. Uma vez mais não foi querido pelos populares e a história repete-se. Desta vez a bengala caiu em Amarante. Nesta terra o santo foi bem recebido e amado pelo povo. Foi aqui que S. Gonçalo se celebrizou e, a ele é lhe atribuída a construção de uma ponte sobre o Rio Tâmega.
É obvio que estas histórias não passam de lendas, mas como em todas elas alguma razão deverá existir. O que se sabe é que S. Gonçalo nasceu em Tagilde. Estudou em Braga e depois de ordenado foi nomeado pároco de S. Paio de Vizela. Mais tarde esteve em Jerusalém como peregrino, numa viagem que duraria 14 anos. No regresso viu-se desapossado da paróquia, e prosseguiu um caminho de busca interior e pregação popular. Terá sido esta razão que o levou até Amarante.
Em Tagilde, no lugar de Arriconha, existe uma capela em honra de S. Gonçalo, cuja construção está datada como pertencente ao séc XVII, conforme atesta uma lápide.Nas redondezas, segundo tradições mais populares existe a fonte de S. Gonçalo, a tal, onde ele se "metia" com as moças, e o penedo onde o santo supostamente comia a sopa.
Este lugar de Arriconha é como que uma pequena aldeia, onde ainda hoje é notório o pequeno aglomerado de casas de construção muito arcaica, em pedras roliças, e servidas por pequenos arruamentos pedregosos, que fazem deste lugar um encantador núcleo rural distinto da restante freguesia. Aqui em volta, tudo são campos de cultivo, o verde é quem predomina e, torna-se mais encantador quando apreciado do alto deste lugar em direcção à Quinta de Vila Corneira. Pode assim contemplar-se um pequeno vale, do lado de cá com campos de muita pastagem, e após um pequeno riacho, surge a outra encosta, esta de pinheiros e eucaliptos.
O segundo acontecimento do qual Tagilde se orgulha, foi a assinatura da aliança entre Portugal e Inglaterra, também conhecida como Tratado de Tagilde, por se ter sido realizada na antiga igreja medieval desta terra em 10 de Julho de 1372. A assinatura do documento teve como protagonistas, do lado português, rei D. Fernando e do lado Inglês, o duque de Lencastre. A assinatura deste documento, foi de tal importância para o país que ainda hoje se sentem os seu efeitos. Foi por este documento que nasceu a amizade entre os dois países, a qual por várias vezes foi reafirmada em outros tratados de idêntico conteúdo.
Em torno deste acontecimento também se criam histórias e expectativas. Ocorre-me contar, que se diz que os tectos presentemente na Casa do Bom Viver, pertenciam à igreja e que foi debaixo deles que se deu assinatura do tratado de Tagilde. Provavelmente, e o mais certo, é que tal afirmação não seja verdade. Seja como for, parece haver alguma relação entre esses tectos e a casa paroquial. Esta também exibe um lindo tecto na sala de jantar, onde se pode ver o escudo da Abadia de Tagilde esculpido em madeira. Verdade é que este é o único exemplar existente nesta casa, onde provavelmente terão existido outros, quem sabe se não são os tais da Casa do Bom Viver, pelo menos assim afirmava o seu proprietário.
Mas em histórias de tectos não nos ficamos por aqui. A igreja paroquial, que se julga construída no século XVIII, no mesmo lugar onde anteriormente existiria a igreja medieval, possui um belíssimo tecto em madeira pintado ao estilo barroco. Este tecto é constituído para vários painéis, onde se podem apreciar pinturas de representações de santos, entre os quais S. Gonçalo e S. Bento.
A Igreja e a residência paroquial situam-se no topo de um outeiro e formam um sólido e homogéneo conjunto em granito neo-clássico, de aspecto senhorial, harmoniosamente enquadrado na paisagem rural. E, é com esta comunidade rural com que a paróquia sempre viveu. Alias, Tagilde é uma terra com tradição de Igreja. Para já, como referi, foi berço de S. Gonçalo, depois, a sua importância como comunidade paroquial é atestada pelo facto de que todos os Padres nomeados para esta terra sejam entitulados Abades de Tagilde, uma vez que esta paróquia é detentora da Abadia de Tagilde.
Em antigas monografias, consta como pertença da Igreja de Tagilde um valioso património imobiliário. É interessante referir, que no princípio do século XX, em tempo de nacionalizações, muito deste património foi vendido em hasta pública pela finanças. Porém, poucos anos depois alguns destes valores foram adquiridos por Francisco Faria, e este constituiu uma sociedade paroquial por quotas, com sede na residência paroquial, a fim financiar a casa de habitação para o pároco.
Ainda sobre Tagilde, devo referir a Cruz Processional datada do séc. XII ou XIV, de prata sobreposta em madeira e que serviu no baptismo de S. Gonçalo. Sabe-se que esta cruz esteve exposta no Palácio de Cristal, no Porto, na exposição de ourivesaria em 1882. Desde então parece ter-se-lhe perdido o rasto. A história é controversa. Há quem diga que após a revolução de 1910, para que não fosse vendida em hasta pública, como o restante património desta igreja, foi confiada ao cuidado de particulares. Depois ainda terá sido vista na igreja paroquial, para de novo ficar guardada. Segundo alguns paroquianos antigos, esta cruz estava guardada em Tagilde não se sabendo onde, e que de Tagilde foi levada ao paço de Braga, pelo então Presidente de Junta aquando do 25 de Abril. Mas, por aquilo que se conhece do então pároco, P. João da Silva Freitas, este nunca a deixaria sair de Tagilde. Tanto assim é, que segundo alguns testemunhos, este bem se esforçou por trazê-la de novo quando ela apareceu em 1963, no Paço dos Duques de Bragança, nas comemorações dos 600 anos do Tratado de Tagilde.
Sobre este acontecimento, foi escrita uma reportagem: "Uma Cruz e cravos de Tagilde (como subtítulo) Os habitantes do lugar (!) de Tagilde, a poucos quilómetros de Guimarães, orgulham-se de a Aliança ali ter nascido em 1372, quando da assinatura de um tratado... Por isso não quiseram deixar de estar presentes. Uma menina - Ilda - filha de D. Inácia e do Snr. Abílio Faria Sampaio, ofereceu ao príncipe um ramo de cravos vermelhos. Também a cruz, que se diz ter servido nas cerimónias do baptismo de S. Gonçalo, em Tagilde, era ali mostrada por um membro do clero. O símbolo fortemente venerado, foi dado como desaparecido durante muitos séculos. Presentemente encontra-se bem guardado - diz-se - num cofre existente na Sé de Braga".
Ainda uma outra reportagem sobre o mesmo acontecimento: "...São onze homens (de Tagilde), cinco deles de opa vermelha, um deles levanta a cruz de ferro que veio dos cofres fortes do Paço da Arquidiocese para o príncipe Filipe ver. E não se lembrará de nada, aquela Cruz?..."
Tagilde é ainda hoje, marcadamente, uma terra de traça rural, de pouca riqueza, diria mesmo pobre, e muito carenciada, tanto no aspecto social como em infra-estruturas. Juntando as suas características geográficas com o peso cultural e histórico, resulta uma freguesia de traça genuína, exigindo por isso, um progresso singular. Não se trata de montar betão, antes e primeiro, é preciso definir muito bem as prioridades e zonas de expansão, depois há que preservar e promover. Há que olhar para as pessoas e tratar das suas necessidades sociais. Não chega desfiar intenções, é preciso agir

03/11/2011

Retrospectiva - Bruce Guimaraens


Bruce Guimaraens Por Jorge Miranda 2002/12/23 (PUBLICADO NO NOTÍCIAS DE VIZELA)


Na edição de 24 de Agosto de 2002 do «Público» vinha publicada uma fotografia, que de imediato deteve o meu desfolhar. Nela aparece um senhor de pose distinta, sentado a uma mesa, numa sala de tom clássico,  a beber, pausadamente, um cálice de Vinho do Porto. A parede mostra um retrato, que ao olhar me pareceu familiar. Na verdade foi esse retrato que voltou a minha atenção para o título do artigo: “ Vinho do Porto perde Bruce Guimaraens”.


O senhor do retrato trata-se de William Wilby, antigo proprietário do conhecido Chalé do Inglês. O homem do cálice de Porto é Bruce Duncan Guimaraens, do qual o «Público», dá conhecimento da sua morte a 23 de Agosto de 2002. Bruce era neto de Manoel Pedro Guimaraens, autor de a “Rita Portuguesa”, publicado na Inglaterra. Este livrinho, o qual foi traduzido e editado em português pela Dra. Maria José Pacheco, relata as férias do autor, em Vizela, em casa de William Wilby, avô da sua esposa, Grace Gordon.

De Bruce Duncan Guimaraens, o «Público» diz que se tratava de um homem muito culto, de personalidade cativante e que, os seus conhecimentos salientavam o seu humor refinado, de toque “very british”, e a sua alegria de viver. No curiculum de Bruce constam mais de 50 vindimas e alguns dos mais importantes Vinhos do Porto Vintage. Entre 1961 e 1992 dirigiu a empresa Fonseca Guimaraens, a qual já havia sido dirigida pelo seu avô Manoel Pedro. No entanto, a empresa foi fundada em 1822, por um seu antecessor, também de nome Manoel Pedro Guimaraens. Este último nutria uma simpatia pela causa liberal, tendo sido obrigado a fugir para Londres escondido numa pipa de vinho, de onde passou a comandar a Fonseca Guimaraens.
Aproveito a deixa deste pequeníssimo naco de património da nossa terra, para remeter este artigo para a discussão: o que foi, e o que é a Cidade de Vizela.

Em finais do século XIX e inicio do século XX, Caldas de Vizela era uma terra capaz de cativar as mais altas personalidades, como Manoel Pedro Guimaraens ou Camilo Castelo Branco. Na nossa terra encontravam a mais completa simplicidade na hospitalidade dos vizelenses, a pureza das paisagens rurais minhotas, as águas murmurosas do Rio Vizela e a saúde das cálidas águas termais. Manoel Pedro Guimaraes escreveu:

« E lá fomos por uma rua de Vizela, com o querido «até logo!» tagarelado pela Rita ressoando nos ouvidos. Continuamos ao longo das veredas, onde as videiras se entrelaçavam e de árvore em árvore, formavam uma parede viva de cada lado.»

Já Camilo Castelo Branco:

«...atravessámos o Vizela... Trinavam ainda os rouxinóis nas margens frondosas do rio, e ao longe assobiavam melros e grasnavam as pegas nos pinheirais. A corrente murmurosa trapejava nas franças dos amieiros debruçados à flor da água. Daí ladeamos o banho Mourisco.»

Uma centena de anos depois restam memórias que fazem parte do nosso património. Resta também a esperança ténue do resplandecer de uma nova cidade inspirada na nossa cultura, na cultura da água, na cultura minhota, nas raízes romanas e acima de tudo no bom coração dos vizelenses.

Que faz a Vizela de hoje, para que daqui a 100 anos volte a merecer o carinho de outros ilustres do mundo?