24/07/2013

As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (VII)

(anterior)

6 – As Ruínas da Fábrica da Cascalheira
6.1 - Guerra Peninsular

É comum ler-se que a fábrica de papel da Cascalheira foi destruída em 1808 pelas invasões francesas, porém é quase inexistente a documentação disponível na grande rede que é a Internet. Recorremos de novo a Rui Moreira de Sá que nos dá uma perspectiva diferente da sabedoria comum. Com efeito em a «Prioridade do Fabrico de Papel na Quinta de Sá”, são citadas duas fontes que apontam para que a destruição da fábrica tenha sido levada a cabo por plebeus que acusavam o seu promotor de “afrancesado”. 

No terceiro capítulo destes apontamentos fizemos referência a que António de Araújo e Azevedo pode ter sido determinante na construção da fábrica podendo também o ter sido, ainda que involuntariamente, para a sua destruição. O futuro Conde da Barca tornara-se Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Guerra e figura central do conflito quadrangular, Portugal, Inglaterra, França e Espanha que os levou à Guerra Peninsular, ou de forma mais comum à invasões francesas. Recapitulando o que já foi dito antes, António de Araújo e Azevedo recebeu intimação de Napolião Bonapart para fechar os portos aos navios ingleses e prender todos os súbditos britânicos em território nacional e demitisse o ministro inglês em Lisboa. Em Conselho de Estado António de Araújo e Azevedo fez vencer a sua posição e Portugal acatou o pedido de fechar os portos mas não as outras condições.

Entretanto os franceses entendem que Portugal não acatou as condições do chamado Bloqueio Continental e decidem invadir Portugal. Em 18 de Outubro de 1807 as tropas francesas comandadas pelo general Junot entram em Espanha em direcção a Lisboa atingindo a fronteira portuguesa em 20 de Novembro. Durante o trânsito das tropas de Junot em território espanhol, Portugal celebra com Inglaterra um acordo secreto para transferência da Monarquia portuguesa para o Brasil pelo qual a armada inglesa daria protecção aos navios portugueses. António de Araújo e Azevedo terá sido um dos principais conselheiros reais a apoiar este plano e em 29 de Novembro de 1807 parte juntamente com a família Real para o Brasil. Na mesma viagem também embarcou o empreendedor da fábrica de papel, Francisco Joaquim Moreira de Sá.

Conforme também já sabemos Thomaz Bishop, por ser inglês, não estava em segurança em Portugal e por isso refugiou-se na América do Norte. Nestas circunstâncias e sem os timoneiros a fábrica não tem condições para laborar e de certa forma terá ficado ao abandono.

Voltando a Rui Moreira de Sá, segundo o qual, em dizer de Pereira Caldas o povo terá apelidado Francisco Joaquim Moreira de Sá de jacobino feroz e arrasou-lhe a fábrica até aos alicerces. O autor relaciona essa posição com a do brigadeiro Carlos Azeredo em «As Populações a Norte do Douro e os Franceses em 1808 e 1809» na qual relata muitos casos de perseguição a suspeitos de “afrancesados”. 


Em nosso entender é bem possível que assim tenha acontecido, a mais que era do conhecimento que Francisco Joaquim Moreira de Sá tomou o terceiro grau maçonaria em 1790 tendo no entanto renunciado voluntariamente perante o Santo Ofício em 1792. De qualquer modo, mesmo que assim não fosse, é compreensível que o povo se tenha sentido abandonado pela fuga da Coroa para o Brasil e visse num ataque à fábrica uma forma de vingança. Em 1809 Francisco Joaquim Moreira de Sá através da Real Imprensa da Universidade de Coimbra publicou um ode em jeito de apelo à luta contra os franceses: «Proclamação aos Portugueses»
«Enquanto o monstro vela, os Lusitanos
Dormem acaso? Acaso descansados
No regaço da paz, ao ócio entregues!
Que é isto,  bravos Lusos! Porventura
Julgais tudo acabado? Quando apenas
Mal os ombros meteis à grande empresa!
Às armas, Lusitanos correi prontos,
Dai aos Manes d’Herois heróicos feitos.»


Convenhamos que não terá caído bem ao povo estes escritos sabendo do seu autor a salvo no Brasil (isso dizemos nós).

(continua)

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