04/10/2008

A fábrica de tudo e de todos

A propósito dos 100 anos da CUF,fica aqui um link para um blog que tenta recriar a história da CUF http://industriacuf.blogspot.com/.

Do mesmo modo deixo um texto de Bruno Contreiras Mateus in Correio da Manhã que vem mesmo a propósito do actual tema em discussão neste blogue:
No Barreiro há sempre quem tenha algo para contar sobre a Companhia União Fabril. Porque lá trabalhou, ou porque lá estudou ou viveu. Motor de uma região, a CUF faz 100 anos

Sou o que Alfredo da Silva queria que eu tivesse sido', afirma orgulhoso Manuel Gomes Cerqueira, de 58 anos. 'Eu não nasci num quintal. Nasci no posto médico da CUF. Fui para o infantário da CUF, à escola da CUF, para a colónia de férias da CUF, para o centro educativo da CUF, para a Escola Industrial e Comercial Alfredo da Silva [inaugurada em 1947] onde tirei o curso industrial' – enfatiza. 'Andei descalço até aos 14 anos. Os meus primeiros sapatos deu-me a CUF quando fui para a colónia de férias.' Esta era a política paternalista que o 'patrão' das indústrias no Barreiro oferecia aos trabalhadores e à família destes. Por um lado tornava-os mais dependentes do trabalho; por outro, foi o precursor das políticas sociais no País.
O pai de Manuel Cerqueira começou por ser estivador. Como muitos, 'foi no balão' [despedido] três vezes. Regressava a casa, em Arcos de Valdevez, no Minho. Quando conseguiu fixar-se na CUF, passou a operário têxtil. A mãe começou por coser sacos de adubo, depois passou para as limpezas.
Naquela época, era no bairro das Palmeiras, contíguo às fábricas, que vivam em ilhas a maioria dos operários sem especialização alguma. Viviam em barracas, tal como a da família Cerqueira. 'Morávamos numa barraca de madeira em duas assoalhadas. Os meus pais e seis filhos. Parece que estou a olhar para ali' – diz, enquanto aponta para o canto do seu antigo pátio – 'e estou a ver tudo inundado pelas cheias, eu bebezinho com papeira, deitado na minha cama.' Manuel não se contém com as recordações e as lágrimas correm-lhe. 'Reviver estas histórias é muito complicado', justifica. 'Depois a barraca passou a ser capoeira e mudámos para uma casa de tijolo, ao lado'.
Naquele quintal apertado não há hoje barracas. Mas o bairro está tão degradado que a condição daquelas pessoas parece não ter melhorado nos 58 anos de vida de Manuel Cerqueira. 'Sentava-me em cima do muro e assistia aos bailaricos, no Grupo Desportivo Operário' – colectividade fundada em 1934 no bairro operário (a menos de um quilómetro dali) e que, dois anos depois, os operários conseguiram deslocar para o bairro das Palmeiras. Manuel seguiu o destino da família e empregou-se também na CUF. Mais tarde foi para a Renault.
Alfredo da Silva procurava justamente criar, formar e empregar este tipo de trabalhadores. E Manuel Gomes Cerqueira foi mais longe ainda do que teria 'sonhado' o 'patrão': enquanto jogador de basquetebol do GD CUF (ver texto ao lado) foi, em 1978, capitão da Selecção Nacional.
Os primeiros operários do Barreiro, em meados do séc. XIX, eram corticeiros, ferroviários, moageiros e pescadores. Em 1864 residiam no concelho 4543 pessoas e já em 1911 – três anos após a fundação da CUF – subiu para 12 203. As oficinas dos Caminhos de Ferro Sul e Sueste – com ligação às planícies alentejanas – e a proximidade com o rio Tejo, defronte para Lisboa, foram determinantes para Alfredo da Silva erguer ali as fábricas. Nos anos 40, o 'grande formigueiro' de operários era parte de uma população local de 26 104 habitantes, que muito cresceu à custa de migrantes do Alentejo e Algarve, principalmente, mas também das Beiras e dos 'ratinhos', do Norte. 'O Barreiro é atípico no contexto português. A indústria implanta-se destruindo a terra de cultivo' – refere Ana Nunes de Almeida, investigadora principal do Instituto de Ciências Sociais. 'Passa a uma grande concentração urbana de operários que viviam a tempo inteiro para a fábrica. O que torna a relação com a CUF muito mais tensa.'
António Patacas, 86 anos, começou a trabalhar aos 11 (em 1932). Ajudava as mulheres a coser sacas para adubos. Claro, uma criança cosia duas ou três por dia; as operárias, mais de cem. 'Eu ia descalço, com uma camisa e calças. Não tinha cuecas. Não sabia ler nem escrever.' Era o retrato da maioria das famílias do Barreiro. 'Na minha casa não havia refeições. Éramos 21 irmãos – mas só me lembro de 12.'
Evita falar de política e é preciso insistência para que António desenrole este novelo. Depois mostra um jornal ‘Avante!’ de 15 de Fevereiro de 1931. Aos dez anos já o distribuía clandestinamente. O papel do original era uma 'seda' tão fina que, depois de amachucado, 'comia-se' se a PIDE perseguisse o leitor. 'Aos 15 anos eu já dava um tostão ou cinco – o que podia – a quem angariava dinheiro. Era preciso muito dinheiro para aguentar um partido assim. Chamavam à esta terra o Barreiro-Moscovo. E era onde a PIDE tinha também mais informadores. Calculava--se que em cada quatro pessoas um seria informador. Era uma desconfiança.'
No final da década de 40, os dez mil trabalhadores da CUF agrupavam-se em seis sectores: 300 nos Ácidos; 200 nos Adubos; 300 no Cobre; 300 na Química Orgânica; mil na Metalomecânica, incluindo a fundição do ferro e do aço, as oficinas de construções mecânicas e as oficinas de construções metálicas e navais; e cerca de três mil no Têxtil, incluindo a fiação e tecelagem da juta, a fiação da lã, a tinturaria, a confecção de tapetes, lonas precintas e mangueiras, o fabrico de fios e cordas, velas e encerados.
Já como servente de pedreiro – depois dos 15 anos –, Patacas conhecia bem os cantos destes 790 mil metros quadrados. 'Era uma escravidão. Se visse hoje como se trabalhava nos adubos jogava as mãos à cabeça. Era uma loucura de manhã à noite, saíamos de lá loucos só com o trabalhar da máquina. A metalurgia do cobre era um inferno de calor. Morria muita gente.'
E foi um acidente de trabalho que mudou a vida de Patacas. Caiu do alto de um andaime com três colegas em cima. Depois, o trabalho continuou mas nos escritórios de um armazém de ácidos. Patacas, que tinha aprendido as letras como autodidacta, aprendeu a ser escriturário, 'não por mérito, mas pelo acidente'. Até há pouco tempo, Patacas, que se fez a si próprio na adversidade, foi artesão, pintor e fotógrafo.
Além da zona fabril, com edifícios, arruamentos, parques e o cais ligado ao rio, havia uma zona 'social', com centro educativo, refeitórios, creches, bairros operários e parque desportivo. A CUF passou a integrar em 1908 uma despensa que atendia 600 pessoas diariamente e que vendia fiado – até parcelado. Havia balneários, moagem e padaria. E nos anos 40 criaram a Caixa de Previdência do Pessoal e é inaugurado o Hospital da CUF.
Com 94 anos, Maria Maurício Firmino ainda hoje diz que 'a CUF era uma casa como não havia nenhuma no País. O patrão foi o pai e a mãe de toda a gente no Barreiro'. A dactilógrafa concorre para um lugar nos escritórios deste império em 1948 – Alfredo da Silva já tinha falecido há seis anos e era agora o seu genro, Manuel de Mello, quem geria os destinos do grupo industrial. Filha de um inspector principal dos Caminhos de Ferro, estabelecido na cidade, teve sempre a casa farta. Casou com um escriturário e recorda que governava a casa com apenas 300 escudos. Ela ganhava 1200. Reformou-se pouco antes de 74, mas acredita que 'não se devia ter nacionalizado aquelas fábricas'.
A CUF tinha sobrevivido a duas guerras mundiais e a dezenas de crises (ver caixa), mas não resistiu à Revolução de Abril de 74. Só em meados dos anos 80, quando o Governo de Cavaco Silva encetou uma série de privatizações, o grupo José de Mello (do neto de Alfredo da Silva) começou a recuperar o património perdido com a nacionalização.
Sobre esse período da História, o secretário-geral do PCP disse, numa intervenção dos '100 anos de resistência e luta dos trabalhadores da CUF', que 'a imensa fortuna dos senhores da CUF foi amassada com brutal exploração de milhares de trabalhadores; baixos salários, precariedade de trabalho, ritmo de trabalho intenso'. Jerónimo de Sousa acrescenta que 'os que hoje procuram responsabilizar o 25 de Abril e o que chamam desvarios revolucionários, pela destruição do legado industrial e tecnológico da CUF, falsificam com todos os dentes a verdade histórica'.
Dos bairros construídos para os operários especializados, o primeiro a nascer, em 1909, louva Santa Bárbara. Curioso também terem-lhe posto nomes como rua do Ácido Sulfúrico, ou rua dos Superfosfatos. Mas era a menos de um quilómetro daqui que moravam os operários sem qualificações, na pobreza. O bairro das Palmeiras, onde viveu Manuel Gomes Cerqueira, orgulhoso por se ter tornado – segundo diz – no que Alfredo da Silva queria que ele fosse, é hoje um gueto. A criminalidade e o tráfico e consumo de drogas estigmatizam-no. Dentro dos pátios construíram-se ilhas de casas sem condições, umas sem luz eléctrica e algumas com rendas acima dos 200 euros. Maria Emília Gil, 72 anos, só paga 3,33 euros. Desde os quatro anos que a família se instalou ali, quando o seu pai se empregou nos Ácidos. Emília, entretanto, casou com Joaquim Santos e criaram os quatro filhos nos mesmos dois quartos.
Todo este ambiente degradado emociona Inácio Garcia, 58 anos. Outro filho do bairro. Conta que quando por ali passavam os cavalos da GNR – que se instalou na CUF após a grande greve de 1943 – ninguém se podia meter à frente deles. 'O Barreiro viveu então um período de verdadeira ocupação militar, vieram forças da GNR do Cabeço de Bola, chamaram o Regimento de Infantaria 11 de Setúbal e a PSP distrital. Fizeram centenas de prisões indiscriminadamente (...)' – recorda Artur dos Santos Tavares nos ‘Estudos sobre o Consumismo’. Inácio era só um miúdo, mas até Abril de 1974 aqueles cavalos foram respeitados.
'Vivíamos num espaço reduzido do bairro e só nos deslocávamos uma vez por ano ao centro do Barreiro [que fica a menos de meia hora a pé], para ir às festas', conta Inácio. 'Isto era um campo de concentração sem barreiras nenhumas.' Inácio fez todo o percurso escolar nas mesmas infra-estruturas sociais criadas pela CUF. Trabalhou lá 11 anos na termofixação de ráfia no fabrico das alcatifas. Depois, como tinha o curso industrial de carpintaria, estabeleceu-se por conta própria.
Como presidente do Grupo Desportivo Operário ‘Os Vermelhos’, Inácio pretende dar às crianças do bairro das Palmeiras o apoio social que diz ter recebido no tempo da CUF. A colectividade espera vir a inaugurar, no próximo ano, um pavilhão desportivo e a creche para 30 crianças. Depois, conta ter também uma espécie de ATL e diversas actividades para 'tirar as crianças da rua'.
NO DESPORTO PARA TEREM UM TRABALHO NA INDÚSTRIA
O 'histórico' treinador Manuel de Oliveira sabe que o Grupo Desportivo da CUF podia ter sido campeão nacional se o ‘patrão’ quisesse – o futebol do clube disputou-se na primeira divisão, desde a época de 53/ 54 e durante 22 anos.
'Quando eu entrei para jogador entrei também como funcionário da CUF. Naquela altura, o futebol não era profissional. O que interessava mais do que ser jogador era o emprego na CUF' – explica Manuel de Oliveira, 76 anos. O antigo jogador saiu do Sporting para ser empregado de escritório na indústria barreirense e para a sua mulher se empregar nos têxteis.
Quem ia estudar procurava a Académica de Coimbra; no GD da CUF, era o emprego que aliciava. 'No plano desportivo, o Sporting era mais forte. Mas senti-me muito bem no GD CUF porque podia não só jogar como trabalhar.'
Foi como treinador, na época em que foi inaugurado o Estádio Alfredo da Silva, que Manuel de Oliveira levou o clube a competições europeias batendo o AC Milão por 2-0 em casa, em 1965.
Capitão-Mor tinha 22 anos quando, na época seguinte, se estreou no clube. 'Bem dita a hora porque passei de operário a empregado da CUF. O meu pai era soldador e passou a chefe. A minha mãe era empregada têxtil, andava com bata preta, e passou a pagadora.' Conta o ponta-de-lança - hoje com aos 65 anos e um filho no futebol do GD Fabril que promete ir longe - que pelo clube passaram muitas figuras também do Benfica como Ferreira Pinto, Mário João, Arsénio. 'Éramos fortes, estávamos sempre classificados em 5.º, 6.º lugar.'
Mas o clube das fábricas do Barreiro não brilhava só no futebol. Manuel Gomes Cerqueira (ver texto principal), filho de empregados da CUF e também ele lá trabalhador, foi o único capitão da Selecção Nacional de Basquetebol do GD CUF. No hóquei em patins, Vítor Domingos foi considerado o melhor guarda-redes do Mundo, em 1972. Também na Selecção Nacional, o jogador já tinha conquistado um Campeonato Mundial em 68 e quatro competições europeias.
Em 1962, Vítor chegou ao clube com a promessa de emprego na UFA (União Fabril do Azoto) mas foi colocado na secretaria do GD CUF. 'A adaptação como jogador custou-me por causa da respiração. Os gazes, a poluição, eram muito maus.' Mas depois disso e de curada uma lesão num joelho – foi operado no Hospital da CUF – o clube disputou sempre os primeiros lugares.
Este ano foi encontrada uma bandeira do GD CUF que data de 1928. Julgava-se, até aqui, que o clube datava de 27 de Janeiro de 1937. Praticam-se hoje como modalidades principais o futebol (na 3.ª divisão nacional), hóquei (formação), ténis, judo, ginástica, futsal (3.ª divisão nacional), kickboxing e atletismo. Além do Estádio Alfredo da Silva, inaugurado em 1965, o agora GD Fabril tem ainda um pavilhão multiusos, dois campos de futebol de relva natural, três sintéticos, uma pista de atletismo e cinco courts de ténis, três de terra batida e dois sintéticos.
'Enquanto presidente do Grupo Desportivo Fabril, vou sempre manifestar o meu descontentamento por as forças vivas desta terra – e muito mais os políticos –, que defendem os cem anos da CUF, se esqueceram que a CUF tem um Grupo Desportivo, que está vivo e vai continuar vivo' – afirma Faustino Mestre. Recorda o presidente do Fabril que 'a família Mello foi mal tratada no Barreiro', mas 'resistiu ao temporal do 25 de Abril. Não se apaga a História. E mal vai o País quando não consegue aprender com a sua História.'
As críticas de Faustino Mestre atingem os Mello. 'Sinto-me triste por não darem atenção a esta casa. E faziam o grande favor de doar, espontânea e incondicionalmente, estes terrenos ao Fabril.' Mais, acusa anteriores direcções de terem feito desaparecer mais de um milhão de euros que deveriam pertencer aos cofres do clube. 'Nestes últimos 20 anos, o clube vendeu terrenos no valor de três milhões de contos (cerca de 15 milhões de euros) e o único dinheiro que entrou nesta casa é referente ao aluguer por direitos e superfície, por 20 anos, do terreno das bombas de gasolina – 140 mil contos (700 mil euros). E a família Mello sabe disto porque recebeu 90 por cento da verba total. Achei mal foi os outros 10 por cento não terem entrado para o clube' – acusa

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